Pensata

Eliane Cantanhêde

30/08/2009

Reconstrução de Palocci

Publicidade

Acompanhei de Bariloche, cobrindo a reunião da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), a decisão do Supremo de não decidir coisa nenhuma sobre um ministro que jogou o peso do Estado indevidamente para quebrar o sigilo bancário de um simples caseiro.

Até de longe, não houve nenhuma surpresa no resultado. Você aí conhece algum peixe graúdo que tenha sido efetivamente processado e finalmente condenado pela Justiça Brasileira?

É assim que Palocci está leve, livre e solto do processo no Supremo pelo caso do caseiro Francenildo e de outros sei lá quantos processos em instâncias menores por causa daquelas coisas e daqueles assessores esquisitas e esquisitos da sua época de prefeito em Ribeirão Preto. E pronto para reconstruir sua trajetória na política brasileira.

Afora esses, digamos, detalhes com a Justiça, Palocci é um cara e tanto. Fez um trabalho reconhecidamente muito bom no Ministério da Fazenda, mantendo os princípios de segurança macroeconômica, fugindo do populismo tentador, negociando projetos e decisões.

Além disso, tem um jeitão confiável de médico e circula muito bem na política e no grande capital. Não fossem os percalços em outras esferas, teria sido ele, não Dilma, o candidato de Lula à sua sucessão em 2010.

Afastado esse projeto maior e vencidos os processos, Palocci dá um passo abaixo nas suas pretensões, mas se mantém ainda num ótimo patamar ao disputar o Governo de São Paulo. Vai esbarrar no favoritismo do PSDB e nos sólidos índices de Geraldo Alckmin nas pesquisas, mas o verbo "ganhar" tem muitos significados em política. Ganhar não é apenas vencer uma eleição, é acumular e capitalizar trunfos.

A campanha de São Paulo é uma baita alavanca para a volta de Palocci. E ele não vai se limitar a ela, pois já trabalha intensa, apesar de discretamente, na campanha de Dilma à Presidência. José Dirceu trabalha "por baixo", tentando compatibilizar interesses de PT e aliados, especialmente do PMDB, nos Estados. Palocci opera "por cima", negociando apoio entre empresários e banqueiros.

A partir de 2011, Palocci ou vai governar São Paulo, ou vai ser o homem forte do governo Dilma ou o grande nome do PT para tudo, principalmente para o futuro. Em qualquer hipótese, ele sai dessa para uma melhor. E vivíssimo.

O caseiro? Ora, dane-se o caseiro, dirão todos. No Brasil, é assim.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Foi colunista do Jornal do Brasil e do Estado de S. Paulo, além de diretora de redação das sucursais de O Globo, Gazeta Mercantil e da própria Folha em Brasília.

E-mail: elianec@uol.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca