Fernando Canzian
A "culpa" é do FMI
Lula tem boas razões para comemorar duas levas estatísticas divulgadas pelo IBGE na semana passada. O PIB do segundo trimestre cresceu 5,4% e dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) revelaram avanços sociais consideráveis, principalmente na aquisição de bens e redução das desigualdades.
Uma análise mais fria, porém, mostra que o Brasil está apenas recuperando um tempo perdido. Lentamente, volta a um patamar de renda e emprego de quase uma década atrás --dos anos áureos que se seguiram ao lançamento do Plano Real (1994).
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Isso é muito melhor do que nada, já que poderíamos ainda estar no fundo do poço em que FHC nos meteu ao final de seus oito anos de governo. Lula merece todos os louros pela recuperação? Sim e não.
No final, parece mesmo que a grande sorte do Brasil e do governo Lula foi exatamente não ter tido um plano consistente para a economia brasileira quando assumiu o governo em 2003.
Uma breve recapitulação dos fatos que fizeram a sociedade brasileira perder uma década à toa, por incompetência tucana e verborragia inútil petista:
O Plano Real de 1994 foi um dos mais brilhantes programas de estabilização e de combate à inflação do mundo. Sua implementação a médio e longo prazos, no entanto, exigia esforços que FHC não fez: economizar dinheiro público e, aos poucos, "descongelar" o câmbio que mantinha a paridade R$ 1 = US$ 1 (a paridade era importante no início para estimular a importação e conter os preços internos).
Mas ao longo de todo o primeiro mandato, FHC foi extremamente leniente com as contas públicas. Aumentou barbaramente os gastos e não economizou. Ao contrário, fez crescer a carga tributária e elevou o endividamento do país ao mesmo tempo em que vendia patrimônio estatal (Vale do Rio Doce, Usiminas, telefônicas etc.). Isso tudo para sustentar o chamado "populismo cambial" que o ajudou a se reeleger. Afinal, até a empregada do presidente podia passar férias em Miami...
No final de 1998, a conta chegou. O Brasil quebrou e FHC recorreu ao FMI (Fundo Monetário Internacional). Tomou emprestado US$ 41,5 bilhões em algumas parcelas (US$ 9,3 bilhões na primeira).
Meses depois, em fevereiro de 1999 e já reeleito, o governo FHC proporcionou uma das cenas mais servis e deprimentes em relação ao FMI jamais vista. Em entrevista coletiva em Brasília, o então número 2 do Fundo, Stanley Fischer, ditou as regras, em inglês, que o Brasil deveria obedecer para ter o resto do dinheiro. O então ministro da Fazenda de FHC, Pedro Malan, mais escutou do que falou.
| 04.fev.99/AFP |
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| Em 1999, o número 2 do FMI, Stanley Fischer, diz o que o Brasil deve fazer com sua economia |
Basicamente, o FMI exigiu que o governo fizesse o básico: que economizasse e gastasse menos. Sob a "tutela do Fundo", foi o que o Brasil fez, atravessando períodos difíceis de turbulência internacional até a eleição de 2002.
Com Lula liderando as pesquisas, as coisas pioraram rapidamente. O Brasil ainda estava quebrado, o dólar subia sem parar, e investidores internacionais saíam o mais rápido possível do país, secando as reservas em dólares no Banco Central.
Lula costuma dizer que foi FHC quem quebrou novamente o país em 2002. Mas o que investidores internacionais podiam pensar de uma turma que dizia coisas do tipo?:
"O FMI não existe para ajudar o país ou o povo. Existe para ajudar os credores e impor ajustes fiscais" - Lula em 21.set.98.
"Queremos a imediata expulsão (de Lorenzo Perez, representante do Fundo em visita ao Brasil)" - José Dirceu em 11.fev.01.
Isso em um país que afundava e que só podia contar com uma bóia, o FMI.
Em agosto de 2002, com o valor do dólar explodindo, e as reservas cambiais secando assustadoramente, FHC consegue milagrosamente mais US$ 30 bilhões do tão criticado FMI. Para tentar acalmar a finança interna e externa, o então presidente também reúne-se separadamente com os candidatos Lula, Ciro Gomes, Garotinho e Serra. Arranca deles um compromisso de manter as regras do jogo (e da economia de gastos) combinadas com o Fundo.
| Sérgio Lima - 09.mai.02/Folha Imgem |
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| Em 2002, Ciro, Lula, Garotinho e Serra vão a FHC e garantem que mantêm a política do Fundo |
Algumas semanas depois, Lula venceria a eleição.
Os bons resultados da semana passada anunciados pelo IBGE talvez não existissem não fosse um terrível acontecimento nas hostes petistas: o assassinato, no início de 2002, do então prefeito de Santo André e coordenador do programa de Lula, Celso Daniel (um quadro mais comprometido com a tagarelice vazia do PT em relação a temas como o FMI).
A morte de Daniel levou Lula a substituir a coordenação de seu programa de governo. Entra em cena Antônio Palocci, um político e médico que não entendia muito de economia, mas disposto a aprender --para sua sorte e de todos nós.
Nos primeiros meses de 2003, o primeiro ano de Lula, Palocci e sua equipe, incluindo o então secretário do Tesouro, Joaquim Levy, foram incontáveis vezes a Washington. Viviam na cidade. Destino: o número 700 da rua 19 da capital americana --o prédio cinza do FMI.
Na mesma época, em entrevistas semanais nesse prédio, a imprensa ouvia a mesma ladainha da boca do porta-voz do FMI, Thomas Dawson. O Brasil fazia, com louvor e até exageros, a lição de casa que o FMI exigia. Pela primeira vez, houve um alinhamento em direção à ortodoxia.
Em ordem cronológica e simplificada, essa é mais ou menos a história recente da estabilização da economia brasileira. O que os dados da PNAD mostraram é que, em termos de renda e emprego, só agora estamos começando a voltar aos patamares dos melhores anos da década passada. Mais uma vez, perdemos um tempo enorme.
A maior novidade é que talvez o Brasil tenha aprendido a lição. Não é mais possível se descuidar do lado fiscal, do equilíbrio das contas públicas e do controle da inflação. Com ou sem a "tutela do FMI", expressão que não passa de conversa mole de quem não sabe cuidar da própria casa.
| Alan Marques - 10.jan.06/Folha Imagem | ||
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| Rodrigo de Rato, chefe do FMI, em reunião com Lula, Palocci e Meirelles, presidente do BC |
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |




