Pensata

Fernando Canzian

15/10/2007

Destampando a polícia

Há centenas de filmes e seriados norte-americanos na linha de "Tropa de Elite". Clint Eastwood, Charles Bronson e Kiefer Sutherland que o digam.

O que o filme brasileiro tem de melhor, deixando de lado a discussão vencida, velha e vazia dos "fascistas" X "esquerdistas" (quase uma repetição do ocorrido após os 111 do Carandiru de 15 anos atrás) é colocar a polícia como principal protagonista.

E dissecá-la de uma forma não usual, a partir de uma célula de elite em contraposição ao quadro geral de corrupção e bagunça.

"Tropa de Elite" é o primeiro filme de grande repercussão que apresenta policiais como o do batalhão do Bope como heróis, mocinhos e íntegros --apesar dos procedimentos fora da lei e "heterodoxos", como torturas de suspeitos com sacos plásticos na cabeça e tiros abaixo da cintura.

Nada muito surpreendente em um país onde "inteligência policial" é sinônimo de "pau de arara".

Não se trata aqui de criticar ou apoiar esses procedimentos. Mas é notável que uma corporação tão mal remunerada para uma função tão crucial e perigosa (um policial militar em SP ganha R$ 1.432,00 ao mês), e com segmentos inteiros corruptos, não tenha merecido muito antes a devida atenção do grande público através da arte e do cinema.

Sobre a questão das drogas: qualquer pessoa minimamente inteirada, em qualquer lugar do mundo, sabe que o acesso às drogas pode ser algo muito fácil. É quase como encontrar um vidro de azeite divino em uma loja que ninguém conhece. Mas que existe e cobra caro por ele.

É uma questão simples de mercado: há demanda, haverá oferta. Dentro ou fora da lei, não importa os riscos envolvidos, dependendo do lucro aferido.

Todas grandes cidades do mundo ocidental como Londres, Madri e Los Angeles tem o seu mercado consumidor e respectivos fornecedores. Às vezes escancarado, como na Espanha da década de 80, onde as pessoas vendiam heroína e se picavam à luz do dia na rua; ou mais sutil, mas ostensivo, como ainda se vende hoje maconha a transeuntes em Washington Square, Nova York. São Paulo e Rio não são diferentes.

A grande diferença no Brasil é que a droga é um meio de vida. Tanto para pobres favelados quanto para muitos policiais. Como já foi no Bronx ou Harlem de Nova York há duas décadas. Lá, uma intensa campanha de limpeza entre os policiais e melhora nas condições de trabalho diminuiu o controle do tráfico sobre moradores comuns e extirpou boa parte do câncer que comia a polícia por dentro.

Nesse sentido, "Tropa de Elite" deveria servir para destampar mais do que as análises improdutivas sobre se é a elite consumidora de drogas a causa do problema. Os EUA até hoje são os maiores consumidores do mundo de drogas e não há morros do Alemão por lá.

O principal mérito do filme, que deveria fazer olhar com lupa o problema, é abrir (no cinema e com grande repercussão) o "modus operandi", no Brasil, de uma corporação fundamental para a existência de uma sociedade civilizada.

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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