Fernando Canzian
Oportunidades, e riscos
O Brasil real finalmente parece ter entrado em um círculo virtuoso sob o presidente Lula. Para inveja e desespero do ex-presidente FHC, que agora, na ausência de coisa melhor para fazer, resolveu criticar o ex-metalúrgico por falar errado. Como observou um leitor da Folha, agora só falta o tucano dar uma "tacada" final no petista: "Você só tem nove dedos, eu tenho dez"... Lamentável.
O que conta e contraria a atual oposição são os números muito favoráveis que a economia real vem apresentando, o que abre uma avenida de oportunidades ao Brasil.
Resultados dos balanços de 220 das maiores empresas do país (excluindo as imensas Petrobras, Vale e bancos), mostram, até o terceiro trimestre, que o setor privado nunca ganhou tanto dinheiro como em 2007. Os lucros subiram 45% neste ano na comparação com o ano passado, turbinando oportunidades de investimentos que podem sustentar o crescimento daqui para frente.
Segundo levantamento feito pelo BNDES, pode haver um aumento nos investimentos industriais e de infra-estrutura superior a 10% ao ano entre 2008 e 2011.
Em entrevista ao jornal "Valor", o economista Delfim Netto chega a prever que o Brasil está entrando em um campo onde um crescimento entre 6% e 7% ao ano tornou-se possível.
Delfim destaca que haverá uma competição saudável entre União e os governos tucanos de São Paulo e Minas por "mostrar serviço" na área de infra-estrutura com vistas à eleição de 2010 --onde o PT, o paulista José Serra e o mineiro Aécio neves são potenciais candidatos. Para cada 1% do PIB em aumento dos investimentos em infra-estrutura, calcula Delfim, há um crescimento de 0,5% da economia como um todo.
Mas há vários riscos ainda envolvidos nesse cenário otimista, externos e internos. Não se deve subestimar a capacidade de nossas autoridades e de "aloprados" de plantão em estragar a festa.
O mais importante seria reconhecer que grande parte desse quadro atual foi dado quase que de presente por um cenário externo extremamente favorável nos últimos cinco anos.
Embora o governo tenha mostrado habilidade, nos últimos 18 meses, para transferir para o fortalecimento do mercado interno (com políticas sociais, aumentos do salário mínimo e redução dos juros/aumento do crédito) boa parte da sustentabilidade do atual crescimento, há riscos importantes no horizonte.
Além do mais óbvio, o de uma eventual recessão nos EUA (algo que pode deprimir várias economias em série), há um outro problema que vem ganhando certa dimensão de maneira mais silenciosa: a volta da inflação.
| Editoria de Arte/Folha Imagem | ||
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O quadro acima mostra a evolução da inflação neste ano em 29 países emergentes (Brasil incluído). O aumento não é nada desprezível: a taxa acelerou quase 20% em menos de seis meses. A manutenção dessa tendência pode levar vários Bancos Centrais a voltar a subir juros, esfriando ainda mais, juntamente com os EUA, a economia mundial.
Enfim, o cenário atual é bom e favorável. Mas os riscos estão sempre à espreita. "De onde menos se espera..."
Uma boa medida seria o governo se concentrar mais em ações para reforçar a solidez das contas públicas, evitando gastos crescentes e desnecessários, e controlar uma euforia irritante para os mais escaldados.
Do lado da oposição, menos falatório besta de grão-tucanos ressentidos e mais proposições construtivas só fariam bem ao país.
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Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |

