Pensata

Fernando Canzian

10/12/2007

Capitalismo financeiro de araque

O sistema bancário brasileiro é um dos mais avançados do mundo. Consequência de anos de inflação elevada e de um ambiente que obrigou os bancos a correr cada vez mais rápido atrás da desvalorização da moeda.

É possível fazer quase tudo on line e os sistemas de auto-atendimento são eficientes, sem falar na economia que proporcionam aos bancos ao não demandarem mais funcionários.

Depois de anos na luta contra a inflação e atrás da estabilização, agora os clientes dos bancos (e as autoridades) começam a analisar com mais cuidado o tamanho da conta por trás dessa "modernização" do sistema bancário nacional.

Se antes a urgência de conter a inflação e colocar a economia nos trilhos era a prioridade número 1, deixando várias outras questões em segundo plano, isso está mudando rapidamente.

Na semana passada, o Banco Central decidiu enquadrar os bancos na questão das tarifas, cada vez maiores e absurdas (R$ 5,50 para compensar um "cheque superior" em alguns bancos, por exemplo, ou R$ 8,00 para a emissão de um simples DOC).

A quantidade de tarifas terá de ser reduzida de 55 para 20, e os valores só poderão ser reajustados a cada seis meses. Mas o BC foi frouxo ao dar prazo aos bancos até 2009 para que enviem anualmente (deveria ser mensalmente) extratos com os custos dessas cobranças a seus clientes.

Se o sistema bancário é tão eficiente, para quê precisa de tanto prazo para fornecer um simples extrato com esses registros? Deve ser facílimo produzi-lo, já que os bancos sabem quanto ganham em cada uma dessas operações. E não é pouco.

Entre janeiro e setembro deste ano, os bancos faturaram R$ 40,8 bilhões com tarifas, um aumento de 17,2% sobre os primeiros nove meses de 2006 --uma alta impressionante em um país de economia estável. Isso ajudou a engordar os lucros dos bancos, que acumularam R$ 31,6 bilhões no mesmo período --33% a mais do que em 2006.

Antes da decisão final forçada pelo BC, a Febraban, que reúne os bancos no país, chegou a soltar uma nota preventiva para dar satisfações a seus consumidores.

Diz a nota: "A Febraban está consciente de que precisamos avançar nessa agenda e está dedicada ao aperfeiçoamento das relações com seus clientes (...) Desde o fim da inflação, os bancos passaram a cobrar explicitamente pelos serviço prestados. A partir de então, a relação ficou muito mais transparente, com o cliente sabendo exatamente quanto paga pelo serviço recebido".

Isso é uma meia-verdade, já que, até a semana passada, os bancos vinham cobrando como e quanto queriam, só apresentando a conta depois. E se a relação ficou "muito mais transparente", para quê esperar até 2009 para consolidar os extratos a que os clientes têm pleno direito?

A questão das tarifas é só a ponta do iceberg de nosso capitalismo financeiro de araque, onde a competição de fato passa longe dos bancos.

No Brasil, os chamados "spreads", diferença entre quanto os bancos pagam para captar dinheiro e emprestar a seus clientes, continua acima de 24% ao ano. Em todo o ano de 2007, após sucessivas reduções na taxa básica de juros do BC (a chamada Selic, hoje em 11,25%), o juro médio dos bancos caiu pouco: de 39,9% ao ano para 35,4%

Note: 35,4% em um país com juro básico de 11,25% e inflação de 4%, e onde a inadimplência de maus pagadores está sob controle. Note também: 35,4% ao ano na média, já que juros de cartão de crédito, por exemplo, ultrapassam 100% ao ano.

Com o fim da inflação e com a estabilização que se consolida, é obrigação do Banco Central passar a atacar mais diretamente essas questões, fundamentais para ampliar o crédito no Brasil (hoje equivalente a ridículos 33% do PIB) e as bases para o crescimento do consumo.

O que está claro é que choques de capitalismo e competição não brotarão por geração espontânea em nosso lucrativo sistema financeiro.

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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