Pensata

Fernando Canzian

08/01/2008

Descaminhos do dinheiro público

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A dificuldade do governo em encontrar espaço, após a derrota na CPMF, para cortar míseros R$ 20 bilhões dentro de despesas totais de R$ 560 bilhões previstas para este ano deu ao país uma dimensão exata de tamanho, engessamento e precariedade das contas do setor público.

Os R$ 20 bilhões representam apenas 3,5% do total das despesas previstas. E o governo ainda samba para realizar o corte.

O problema é que do total do gasto não-financeiro do país, pouco mais de 10% poderiam hoje entrar na tesoura. O resto está obrigatoriamente comprometido com o funcionalismo dos Três Poderes, demais despesas vinculadas à Previdência e com outros programas de cunho social. Despesas que vêm subindo de forma alarmante ao longo dos últimos anos.

O quadro abaixo mostra resumidamente onde e como se dão os gastos do governo, assim como os que têm crescido mais ao longo dos últimos anos, a exemplo dos salários dos Três Poderes. É uma demonstração didática e prática dos caminhos e descaminhos com o dinheiro dos contribuintes, obrigados muitas vezes a enfrentar péssimos serviços públicos --tema das duas últimas colunas (O que quer o serviço público? e O Brasil que não vai para frente).

Ao final, reproduzo algumas das inúmeras opiniões de leitores recebidas na última semana (os nomes dos remetentes foram omitidos):

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arte canzian/pensata

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É difícil compreender como será possível crescimento econômico com essa enorme despesa com esse pessoal. Mais e mais impostos é diferente de aumento de arrecadação via aumento do crescimento econômico. Esta explicado o porquê cada vez mais, estamos mais para a servidão do que para a cidadania

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Acompanhei com atenção suas duas últimas colunas sobre o padrão dos serviços públicos oferecidos aos brasileiros. Chamou minha atenção o e-mail de uma moça que dizia que no setor privado também enfrentamos problemas. Concordo com ela, mas ficou faltando dizer o seguinte: no setor privado, recorremos aos jornais, ao Procon, ao IDEC, ao tribunal de pequenas causas etc. Mas e no setor público, a quem recorrer?? Tenho certeza de que muitos brasileiros, assim como eu, já se sentiram humilhados quando têm um problema com serviços públicos e vêem-se na ridícula situação de botar panos quentes com medo de que o funcionário público, carregado de poder naquele instante, possa atrasar ainda mais a nossa vida!! É humilhante, não estamos pedindo favor, apenas exigindo nosso direito a bons serviços públicos como contrapartida da alta carga tributária, que acaba de subir mais um pouco em relação ao PIB no paquidérmico governo Lula!!

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Como servidor publico que entrou no judiciário há apenas 2 anos e meio e ganho muito menos que a média elencada pelo Sr só posso achar patética sua crônica.

O que o serviço público precisa é de mais gente, capacitada como eu sou e como a maioria dos meus colegas são. Capacitados e dedicados.Não se faz mais por falta de estrutura e por falta de dinheiro.

A propósito, por que o sr. não fala sobre os excelentes serviços privados prestados pelos bancos, pelas companhias telefônicas, pelas companhias aéreas, pelos planos de saúde. Detonar o Serviço Público é detonar a Nação. Precisamos de mais gente, e de melhores remunerações.

Meus pêsames por mais essa crônica tendenciosa e equivocada.

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Tenho 28 anos e sou funcionário público concursado desde os 19. Parabenizo o senhor pela iniciativa em tocar num tema tão espinhoso como a qualidade do serviço público. Realmente, do ponto de vista da quantidade enorme de recursos que o governo suga na forma de impostos, o serviço público deveria ser muito melhor que o que é hoje oferecido aos brasileiros. Porém, como funcionário público, tenho algumas observações a serem feitas com relação à matéria. Por exemplo, sempre que são mal atendidas as pessoas costumam culpar o funcionário que está imediatamente do outro lado do balcão, porém, na maioria dos casos ele tenta dar o seu melhor, mas não encontra respaldo da administração pública, que equipa mal os servidores, treina mal, cria disputas entre os servidores por cargos em comissão cujas nomeações nada tem a ver com produtividade ou competência, e, por que não, também remunera mal em muitos dos casos.

Os cidadãos têm uma ferramenta poderosa para melhorar o serviço público, que é o VOTO. Através do voto o povo escolhe os servidores mais importantes, que são aqueles que vão ditar toda a política dos serviços públicos, tanto para melhor, como para pior; também são aqueles eleitos pelo povo que vão nomear outros servidores também importantes e poderosos, além de muito bem remunerados, que serão comprometidos ou com o atendimento digno da população, ou somente com os interesses de quem os colocou lá.

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Quero manifestar meu desconforto com suas colunas duas últimas colunas no pensata, sobre os serviços públicos. Primeiramente queria dizer que concordo com o básico do que você escreveu. No entanto, queria lamentar um certo espírito das classes altas brasileiras, sempre prontas para condenar o Estado e endeusar a iniciativa privada. A corrupção privada é fantástica, todos sabem disso. As empresas fraudam o Estado através da sonegação fiscal, fraudam os clientes, ao não entregar o que vendem e não raramente fraudam os trabalhadores, não assinando carteira e não cumprindo a legislação trabalhista. No entanto, raramente vejo na imprensa críticas à corrupção privada.

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Sempre li sua coluna e a considero indispensável. Entretanto, quanto à última matéria, "O que quer o serviço público?", me senti ofendido. Sou leitor da Folha há muito tempo e nunca havia lido um ataque tão constrangedor e desnecessário ao funcionalismo público. Sua reportagem, a meu ver, é totalmente parcial e tendenciosa. Ela leva o cidadão brasileiro médio a raciocinar o serviço público baseado em um preconceito de que são funcionários desleixados e desinteressados detentores de salários estratosféricos que em troca prestam serviços péssimos e devem, portanto ser extintos em favor da iniciativa privada maravilhosa.

Sou servidor público há quase 4 anos, sendo que anteriormente tive carreira na iniciativa privada. Afirmo por experiência própria e não em observação de pintura de viaduto e fila de INSS que os servidores públicos em sua maioria são profissionais de altíssima qualidade e engajados, que não precisam de programas de premiação ou de penalização para trabalharem. O serviço público precisa de leis modernas e estrutura. Por exemplo, não há no serviço público conceitos de qualidade ou de padronização.

Faça um favor ao país: estude o motivo de haver tantas filas nos bancos privados como o Bradesco, talvez você descubra o real motivo do mal atendimento dos serviços de atendimento ao público. Dica de profissional: falta de educação da população, despreparo dos atendentes por falta de treinamento, desorganização institucional, burocracia, leis desatualizadas, falta de pessoal, etc...

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Em relação a suposta melhoria do serviço público, creio que se trata apenas de um ledo engano. A grande maioria das pessoas que prestam concurso, fazem isso pelos altos salários, enormes vantagens e pouco trabalho. Ou seja, querem manter a mamata e a farra com o dinheiro dos nossos impostos. Duvido que mais de 5% tenham o real interesse de melhorar o serviço público. Infelizmente enquanto os cargos forem ocupados com pessoas com essa mentalidade, iremos sofrer com filas e serviços de péssima qualidade.

Por fim. comparar o funcionalismo público com os serviços privados, beira o ridículo. Eu não sou obrigado a pagar por nenhum deles e se não estiver satisfeito, procuro a concorrência...Nada como a concorrência. Pena não existir concorrência para os serviço públicos, pois se houvesse os mesmos já teriam ido a bancarrota há décadas.

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Recebi em casa uma intimação referente a processo de reconhecimento de paternidade (minha filha já tem 25 anos, mas o pai nunca a reconheceu) que está tramitando desde 2001! fui lá, pois o oficial deixou um papel timbrado com o recado: urgente dia 18/12 as 9:30, sala dos oficiais. combino para chegar atrasada ao trabalho e me dirijo à sala referida. fiquei até 11:30 e nada do oficial. a resposta era: ele está na rua, entregando intimações. por que marca com URGÊNCIA, fazendo você ter que compensar horas no trabalho? por que outro não pode atender?? e quando consegui encontrá-lo, no dia 27/12, ainda fui chamada a atenção!! "eu não tenho que ficar aqui, esperando a senhora! o problema é do seu interesse." falei da data, do horário que ele colocou e ainda ouvi mais umas "palavras educadas". depois perde-se a elegância com essa gente e ainda nos incomodamos.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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