Pensata

Fernando Canzian

11/02/2008

Robin Hood às avessas?

Quem já foi alguma vez a um centro de treinamento e recolocação de mão-de-obra popular pôde constatar facilmente uma coisa: a humildade com que os desempregados vão atrás de uma oportunidade. Vão com suas carteiras de trabalho azuis e outros documentos apertados entre os dedos, as melhores roupas para a ocasião e um olhar de esperança.

Existem hoje no Estado de São Paulo mais de duas centenas de centros que fazem colocação e treinamento de mão-de-obra. É lá que essas pessoas vão lançar a sorte atrás de um emprego. Em 2007, 140.320 trabalhadores foram recolocados em centros administrados pelo Estado de São Paulo. Outras 39.398 atingiram o mesmo objetivo em centros tocados pela prefeitura paulistana.

A maior parte da verba usada para esse serviço vem do Ministério do Trabalho e pertence aos próprios trabalhadores. O dinheiro é do FAT (Fundo de Amparo aos Trabalhadores) e administrado pelo chamado Codefat. Esse conselho recolhe e realoca contribuições do PIS/Pasep dos trabalhadores.

Nesse momento, porém, há algo de muito suspeito acontecendo nessa área, que deveria ser limpa e eficiente por lidar com a parcela mais desesperada da população: os desempregados. Uma área que deveria merecer toda a atenção da sociedade e das autoridades responsáveis por fiscalizar o setor público.

Um breve retrospecto:

Poucas semanas depois de assumir o cargo, o atual presidente do Codefat, Luiz Fernando Emediato, assinou resolução (em novembro/07) possibilitando que entidades sem fins lucrativos recebam verbas do órgão que preside para qualificar e recolocar mão-de-obra. Esse tipo de repasse estava suspenso há anos por várias suspeitas de irregularidades.

Semanas depois, a CNTM, uma confederação de trabalhadores ligada à Força Sindical, apresentou plano para receber R$ 13,5 milhões do Codefat e fazer a recolocação em dois postos hoje administrados pela Prefeitura de São Paulo.

Agora, o Codefat já dá como certo o repasse, e garante que o Ministério do Trabalho também apoia "totalmente" o projeto.

Dois problemas e suspeitas:

1) Emediato, presidente do Codefat, é historicamente ligado à Força Sindical. O presidente da CNTM é vice-presidente da Força Sindical. O presidente da Força é Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. Paulinho é pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PDT. O presidente do PDT é o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Ou seja, todos são do mesmo grupo político e sindical e querem os R$ 13,5 milhões.

2) Como se esse conflito de interesses não bastasse, o plano da CNTM prevê recolocar trabalhadores em São Paulo a um custo que é o dobro do gasto hoje pelo Estado de São Paulo no mesmo serviço. Enquanto o Estado gasta R$ 99,25 por homem recolocado no mercado, a CNTM quer R$ 195,33. Detalhe: a CNTM quer agora o dobro, mas já quis 150% a mais (R$ 247,64), conforme plano inicial apresentado formalmente e que gerou suspeitas --sendo substituído depois.

Há algum tempo, Carlos Lupi, ministro do Trabalho, vem sendo alvo de pressão da Comissão de Ética Pública do governo federal, presidida por Marcílio Marques Moreira, para que deixe o cargo devido a sua clara vinculação com um partido político. Afinal, ele é presidente do PDT.

Sabe-se também que o mesmo PDT de Lupi é o de Paulinho. E que a mesma Força Sindical de Paulinho é da CNTM e de Emediato. Também sabe-se agora que todos querem a verba de R$ 13,5 milhões.

A Comissão de Ética Pública já pediu providências diretas quanto a Lupi ao presidente da República. Vários de seus membros ameaçam deixar os cargos caso nada seja feito. E daí?

Com a palavra, o ex-trabalhador e sindicalista Lula.

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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