Pensata

Fernando Canzian

12/05/2008

O Brasil no vermelho

Conta corrente é sempre igual: a sua, a do boteco da esquina ou a de um país.

Quando o que entra no caixa não cobre as despesas, há déficit. Passa-se, então, ao vermelho. Para não quebrar, alguém precisa continuar financiando o rombo.

Essa é a situação do Brasil há dois meses. Depois de um longo período (desde o último ano de FHC, em 2002), o país voltou ao vermelho nas suas transações com o resto do mundo.

Para 2008, a previsão é que o buraco nas contas externas chegue a US$ 23,4 bilhões. No ano que vem, pode ir a US$ 27 bilhões. Como comparação, no melhor ano do governo Lula para este indicador (2005) houve um superávit nas transações do Brasil com o resto do mundo de US$ 14 bilhões.

A deterioração das contas externas de um país não é necessariamente um problema. O buraco pode ser financiado por outros meios: ingressos de investimentos estrangeiros, produtivos ou especulativos, e outras transferências de dólares. O dinheiro de fora entra e mantém o equilíbrio. Se não entrasse, a tendência seria o dólar disparar, o que não é o caso do Brasil.

Mas o problema brasileiro, aparentemente, está na velocidade dessa deterioração. É rápida e alimentada pela forte saída de dólares para bancar um crescimento exponencial das importações. As compras de produtos de fora aumentaram muito para atender à demanda crescente dos consumidores.

A indústria nacional, isso está claro, não dá conta de produzir tudo o que o consumidor brasileiro quer comprar. A saída é importar. Daí as importações crescerem a uma taxa quase três vezes maior à das exportações.

Como resultado, o saldo comercial (exportações menos importações) que era de US$ 46,5 bilhões há dois anos pode cair abaixo de US$ 10 bilhões no ano que vem, piorando ainda mais o saldo da conta corrente do Brasil (ver gráficos abaixo).

Em 2002, último ano em que o país fechou no
vermelho, a falta de dólares para fechar as contas empurrou a cotação da moeda norte-americana a quase R$ 4,00. Hoje, apesar da volta ao vermelho, o dólar se mantém comportado abaixo de R$ 1,80.

A diferença é que nos últimos anos o Banco Central acumulou reservas de quase US$ 200 bilhões. Esse dinheiro pode garantir o financiamento do país caso não entrem dólares suficientes de fora. Além disso, houve uma melhora em quase todos os indicadores importantes que estimulam investidores internacionais a emprestar ao Brasil.

Alguns economistas, porém, consideram insustentável esse modelo de crescimento, apoiado em uma demanda interna sustentada por importações que corroem o saldo comercial. Para eles, as exportações deveríam estar crescendo a um ritmo igual ou maior ao das importações. Para isso, o Brasil como um todo teria de crescer menos, importando menos e exportando mais --e sem déficit externo que ameace o equilíbrio geral.

Nas últimas décadas, muitos dos países que impuseram ritmo sustentável a suas economias tiveram um misto de crescimento do mercado interno e externo (com exportações). Alemanha, Reino Unido e Japão no pós-guerra são exemplos mais antigos. China e Coréia, mais recentes.

Já o Brasil, apesar da conversa de "celeiro do mundo", "imbatível no biocombustível" e rico em commodities segue estagnado há anos com uma participação de 1,2% nas exportações mundiais. Nos últimos anos, a da China passou de 1,2% para 9%. A da Coréia duplicou.

O Brasil da jabuticaba, do juro estratosférico e, agora, do contraditório "fundo soberano" com déficit parece seguir outro caminho.

A ver.

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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