Pensata

Fernando Canzian

19/05/2008

"Ô, Lula!?"

É duro ter de concordar com FHC. O ex-presidente já andou falando demais, e mal, sobre o atual governo sem muita necessidade. Uma dor de cotovelo terrível. Mas o professor tucano sempre parece melhor na teoria do que na prática.

Em entrevista ao colega Ricardo Kotscho, no iG, disse: "Ô Lula, você não acha que chegou o momento de pensar maior? O Brasil está indo para outro patamar". A seguir, disse que a política nacional está indo "para o buraco" e que o país deveria "pensar grande" a respeito de assuntos estratégicos.

FHC pensou grande durante seu governo. Estabilizou a moeda, privatizou e modernizou instituições. Mas entregou o país à beira de um colapso por pura vaidade política. Seu real valorizado e o câmbio fixo, instrumentos de sua reeleição em 1998, custaram anos ao país --assim como as barbaridades econômicas que petistas e Lula pregavam antes ganhar as eleições de 2002.

Mas FHC tem razão quando fala em "pensar maior".

A situação econômica hoje é paradoxal. Enquanto o ministro Guido Mantega (Fazenda) brinca com seu esdrúxulo fundo soberano agora convertido em "cofrinho", a economia brasileira em expansão vai mostrando o tamanho dos velhos e grandes problemas.

A inflação está de volta com o aumento do consumo. Assim como o sinal negativo nas contas externas, provocado pelas importações em rápida elevação para atender a demanda.

O tamanho do setor produtivo brasileiro, isso está claro, ainda não dá conta de um mercado maior. Especialmente porque os gastos gerais do governo continuam em alta, colocando mais lenha na fogueira da inflação. Resta ao Banco Central o trabalho sujo de subir os juros para conter o consumo.

Em 2008, o Brasil deve gastar mais de R$ 110 bilhões só para pagar juros a uma parcela minúscula da população. Esse dinheiro vem dos impostos, que recaem mais sobre os pobres (que pagam até 45% mais tributos do que os ricos porque sua renda é quase toda dirigida ao consumo). O resultado será mais concentração de renda.

Na semana passada, um estudo do Ipea (órgão do Ministério do Planejamento) mostrou que os 10% mais ricos do país concentram 75,4% da riqueza nacional. O percentual não difere muito do que ocorria no Rio de Janeiro ao final do século 18, quando um estudo semelhante foi feito.

Lula tem feito um trabalho positivo na economia, de sedimentação e arranjo do terreno fértil, mas cheio de tocos e raízes, deixado por FHC. Em quase cinco anos e meio de mandato, o PAC e a sua nova política industrial são as duas grandes idéias petistas para o Brasil do século 21.

Parece mesmo muito pouco.

*

Abaixo, reproduzo trechos de carta publicada na Folha pelo deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical, em 8 de março passado. Muito antes de seu nome e rosto começarem a aparecer na mídia nacional como suspeito, pela Polícia Federal, de várias irregularidades.

As reportagens criticadas abaixo por Paulinho estão agora anexadas ao inquérito da PF na operação Santa Tereza.

É um prato já frio, mas de sabor excelente:

"Eu leio a Folha de S.Paulo todos os dias, juntamente com outros jornais, para me informar. Posso assegurar que até outro dia eu tinha a Folha como um veículo pautado pelo bom senso e pelo bom jornalismo. No momento, sinto-me inseguro como fonte e como leitor: como acreditar num jornal que tem em seus quadros pelo menos um jornalista, Fernando Canzian, que quase todos os dias insiste em publicar erros e insinuações malévolas a meu respeito e à entidade que presido?

Sei que não cabe a mim avaliar a capacidade profissional dos profissionais que uma empresa contrata. Mas eu mandaria um bom profissional do ramo fazer um 'checking' nas reportagens que este senhor assina. Aproveito para informar que estou enviando cópia desta carta para o ombudsman. Os leitores precisam saber que tipo de 'informação' estão consumindo.

Como aceitar as mentiras e os erros propagados por este repórter? Ele insiste em repetir, como uma espécie de Goebbels, as mesmas mentiras que tenta transformar em verdade: que a Força Sindical é 'ligada' a ONGs que estariam 'ligadas' também a meu partido, o PDT, ONGs estas que fazem convênios com o Ministério do Trabalho, cujo ministro, Carlos Lupi, é também do PDT.

No editorial de hoje (7 de março), finalmente, a Folha afirma que não estou 'interessado em participar de um debate a respeito do assunto'. Aceito, sim, o debate, mas de forma transparente e desarmada, ao contrário do que está fazendo o repórter Fernando Canzian.

Para dialogar com a Folha eu preciso, no mínimo, que o jornal, num esforço de bom jornalismo, admita os erros de seu repórter. Não porque estou afirmando que ele errou, mas determinando que um profissional isento verifique os fatos. A verdade, até onde eu sei, é uma só."

Fernando Canzian, 40, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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