Fernando Canzian
Kassab, Lula e Serra: rindo de quê?
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"Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e já mudou", dizia o mineiro e udenista Magalhães Pinto (1909-96), fundador do finado banco Nacional.
A questão em relação à foto acima é se ela é somente produto dessa instável meteorologia política ou de uma mudança mais estrutural, como o aquecimento global. Seria finalmente a convergência das três principais forças políticas mais ou menos organizadas e representativas do país?
Gilberto Kassab, prefeito de São Paulo, é do DEM, ex-PFL. Lula é do PT e Serra, do PSDB. Os três não apenas trocaram risadas e muitos elogios na semana passada como anunciaram um investimento conjunto de R$ 3,3 bilhões em saneamento e habitação.
É significativo que as obras, na agenda do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), serão feitas em uma das principais favelas de São Paulo, Heliópolis, onde a trinca fez questão de posar junta.
É importante também que parte da obra seja de saneamento. Pois é famoso o cinismo eleitoral em relação ao setor, dando conta de que canos de água e esgoto, escondidos entre paredes ou debaixo da terra, não são bons puxadores de votos.
É incrível quanto tempo o Brasil perdeu até se chegar à cena dessa foto, onde representantes da ex-direita (DEM), do ex-centro (PSDB) e da ex-esquerda (PT) sentam juntos em uma favela. A convergência entre os três partidos e suas respectivas canetas poderia ser bem mais produtiva do que tem sido. E menos envergonhada.
O caso é tão patente que PT e PSDB estão lançando juntos um candidato à Prefeitura de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, por um terceiro partido, o PSB. A candidatura de Lacerda em BH é perfeitamente cabível se for considerada a evolução das idéias no Brasil pós Plano Real. Mas soa bizarra quando se olha para a cena nacional.
Hoje, o governo do PT tem o apoio na Câmara de mais de uma dezena de partidos, onde o PMDB é seu esteio. Já DEM e PSDB são a pedra no sapato.
Embora descrito como o mais fisiológico de todos, o PMDB foi também o partido que deu sustentação aos tucanos sob FHC, cobrando alto preço em ministérios e cargos.
Já os oposicionistas DEM e PSDB têm juntos na atual Legislatura 114 deputados. É mais do que os 105 do bloco liderado pelo PMDB e do que os 80 do PT. No entanto, jogam contra. E muitas vezes com uma estridência vazia que faz lembrar o velho PT...
É triste. Abandonada a idéia da reforma política, resta aos coitados dos eleitores-contribuintes olhar para as nuvens e rezar por tempo bom.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |

