Pensata

Fernando Canzian

11/08/2008

Hora da verdade

O cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983), diretor de "O Anjo Exterminador" e de "A Bela da Tarde", entre outros, é autor de uma das melhores frases sobre a mutabilidade do mundo:

"Lamento uma coisa: não saber o que vai acontecer. Abandonar o mundo em pleno movimento, como no meio de uma novela... Gostaria de poder levantar-me de entre os mortos a cada dez anos e ir a uma banca de jornais. Não pediria mais nada. Com meus jornais embaixo do braço, pálido, roçando as paredes, regressaria ao cemitério e leria os desastres do mundo antes de voltar a dormir, satisfeito, no refúgio tranqüilizador de minha tumba".

Voltar do mundo dos mortos não é o mesmo que retornar das férias, que também não duram dez anos, infelizmente. Mas é igualmente incrível, nos dias de hoje, como períodos tão curtos podem fazer tanta diferença e ser reveladores, especialmente no campo econômico.

Em pouco mais de 40 dias muita coisa mudou no Brasil e no mundo, voltando a revelar a ainda frágil situação de nossa economia _e a insignificância de nosso mercado de capitais, representado na Bovespa.

Nesse curto período houve uma desmonte no mercado internacional de grandes operações especulativas em torno das commodities (agrícolas, minerais e petróleo). Isso se deu pela tendência de elevação dos juros em vários países, com vistas a conter pressões inflacionárias. Os investidores trocaram posições, deixando operações especulativas, com as commodities, em direção a papéis que pagam juros.

Como resultado, só o petróleo despencou de US$ 150 o barril há algumas semanas para US$ 115. Outras commodities, agrícolas e minerais, seguem a mesma trilha.

Se isso é boa notícia do ponto de vista da inflação mundial, representa um enorme desafio para o Brasil. Uma queda generalizada nos preços de produtos básicos pode provocar um abrupto encolhimento do saldo comercial do país, hoje extremamente dependente das commodities.

Há quatro meses o Brasil voltou ao vermelho em suas transações com o resto do mundo, o que não ocorria desde 2002. Esse quadro pode se agravar rapidamente caso as commodities embiquem com força para baixo. Estar no vermelho significa que o Brasil precisará cada vez mais de dólares de fora para se financiar, sejam dólares de investimentos produtivos ou especulativos.

A tendência geral neste momento, infelizmente, é contrária ao país. Em julho, a diferença entre dólares que saíram e entraram no Brasil foi negativa em US$ 2,5 bilhões, o pior resultado desde 2006. Em junho, o saldo já havia ficado negativo em US$ 877 milhões. Embora o fluxo acumulado no ano se mantenha positivo em US$ 12,4 bilhões, há claramente uma mudança de tendência.

Uma das indicações do estrago que a queda do preço das commodities pode causar já se materializou na Bovespa. Enquanto os principais mercados mundiais experimentam uma boa recuperação nos últimos dias, a nossa anêmica Bolsa patina abaixo dos 58 mil pontos _a despeito de todo o otimismo com o recém-adquirido "grau de investimento".

Apesar de toda a lorota sobre o fortalecimento do mercado de ações no Brasil, a Bovespa ainda está longe de espelhar a economia como um todo. Combinadas, só Petrobras e Vale do Rio Doce (produtoras de commodities) representam 31% do índice Bovespa. Somadas a outras empresas do setor de commodities (como Gerdau e Usiminas), o percentual vai a 43%.

Com a nova tendência de queda das commodities, dificilmente a Bolsa vai se recuperar tão cedo e voltar a atrair os cerca de US$ 15 bilhões de investidores estrangeiros (os verdadeiros "operadores" da Bovespa) que deixaram o país nos últimos dois meses.

No início de junho, o economista Jim O'Neill, criador da expressão BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) disse o seguinte à coluna: "Creio que para sabermos se realmente o Brasil mudou de patamar em termos de seu potencial de longo prazo teremos de esperar o momento em que os preços das commodities começarem a cair. Antes disso, é difícil julgar se a mudança é estrutural ou não. O forte aumento das commodities tornou as coisas muito fáceis para o Brasil".

Ao que parece, a hora da verdade chegou.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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