Fernando Canzian
Chamaram a cavalaria
Entre 1778 e 1890, os EUA foram sacudidos por guerras não formalmente declaradas e massacres de lado a lado entre europeus, os novos norte-americanos e os índios nativos, os verdadeiros donos da terra que os brancos tomariam ao longo de sangrentos anos.
É desse período o mar de histórias dos índios navarros e comanches e de ícones como Touro Sentado, Cavalo Louco e do aventureiro independente Buffalo Bill. Mas entre as figuras mais emblemáticas da época consta o grande general Custer, eternizado por Hollywood em grandes "far western" onde a cavalaria norte-americana sempre salva a tudo e a todos no último minuto.
Na pele de Custer, acaba de surgir com esse mesmo propósito o secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, mais conhecido como Hank. O general das finanças da maior economia do mundo baixou neste domingo (7.set.) carga total contra a ameaça de os EUA afundarem em uma crise cujo fundo continua cada vez mais difícil de ser arranhado.
Em um pacote inédito e de extrema ousadia, o governo dos EUA se apoderou do controle das duas maiores empresas norte-americanas do setor de crédito imobiliário, a Fannie Mae e a Freddie Mac. Essa deve ser a maior operação de socorro da história perpetrada por um governo para salvar entes privados da falência.
O objetivo principal é fornecer quanta liquidez (dinheiro) for necessária às duas empresas para que elas não sucumbam e arrastem junto centenas de outros agentes de crédito nos EUA, interligados a elas por operações mal feitas, mal calculadas e mal supervisionadas pelo próprio Tesouro nos últimos anos.
O governo americano ventilou que poderá injetar até US$ 100 bilhões em cada uma delas (o equivalente ao total das reservas internacionais do Brasil) se assim for preciso. Além disso, o Tesouro se dispôs a comprar empréstimos garantidos pelas duas instituições e a manter linhas de crédito abertas a elas até o final de 2009.
A corneta que acionou a cavalaria do general Hank soou ao final de uma semana de fortes perdas nas Bolsas do mundo todo, do aumento do desemprego norte-americano para 6,1% (o maior em cinco anos) e da certeza cada vez maior de que as economias avançadas estão esfriando além do esperado. Enfim, há uma nova onda de pânico na praça.
Como serão os contribuintes norte-americanos os principais depositários dessa enorme conta, o pacote dos EUA é boa notícia para o Brasil e demais emergentes. Até aqui, apesar de mais de um ano de crise nos EUA e de suas conseqüências sobre as economias mais maduras, são os emergentes, em especial a China, que ainda conseguem manter a economia global com o nariz fora d'água.
Como se trata de vida real, é torcer para que a carga de cavalaria não chegue tarde demais.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |
