Pensata

Fernando Canzian

02/10/2008

A crise chega à rua

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NOVA YORK - A Bolsa de Valores de Nova York não fica na Wall Street, mas na Broad Street. E a economia dos EUA também não está em Wall Street, mas no que os norte-americanos chamam de "Main Street", ou Rua Principal. É na rua que estão as lojas, as fábricas e os consumidores.

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Prédio da Bolsa de Valores de Nova York, localizado ao sul da ilha de Manhattan
Prédio da Bolsa de Valores de Nova York, localizado ao sul da ilha de Manhattan

Nesta semana ficou claro que a crise financeira já chegou à "Main Street", e o principal meio de contágio foi o mercado de crédito. Com bancos quebrando ou sendo fundidos em efeito dominó, o mercado de crédito nos EUA se transformou em um "Vale da Morte", seco em dinheiro para fazer a economia rodar.

As maiores montadoras de veículos anunciaram perdas enormes de faturamento em setembro. Uma das principais causas foi o enxugamento do mercado "subprime" (de segunda linha) de crédito para veículos. Até o ano passado, quase 70% das pessoas que não tinham um bom histórico de crédito nos EUA conseguiam, mesmo assim, financiar a compra de um veículo. Esse total caiu para 22% agora, derrubando as vendas de Ford, GM e Chrysler.

Entre os consumidores, nova pesquisa do Fed (banco central dos EUA) mostrou que dobrou entre abril e agora o número de bancos (de 30% do total para 65%) que passou a adotar políticas mais restritivas para a concessão de financiamentos, tanto para cartões de crédito quanto nas redes de varejo.

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Turistas fotografam touro em Wall Street que representa o otimismo do mercado
Turistas fotografam touro em Wall Street que representa o otimismo do mercado

Além de vender menos, as empresas estão estranguladas com a falta de crédito para girar suas atividades no dia-a-dia, como pagar salários e comprar matérias-primas para produzir. Nas duas últimas semanas, as maiores companhias americanas conseguiram levantar juntas só US$ 6 bilhões colocando títulos no mercado. Em tempos normais, elas conseguiriam esse valor em um único dia.

O FMI (Fundo Monetário Internacional) acaba de divulgar um relatório traçando um horizonte muito ruim para a economia norte-americana. Uma recessão forte e de longa duração não está mais descartada.

Ao analisar 113 crises em vários países nos últimos 30 anos, o Fundo considera que a atual, nos EUA, é a que mais se assemelha a uma "tempestade perfeita". Isso porque ela acerta em cheio o consumidor, que é quem faz, em última instância, a economia andar.

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Loja na 5ª Avenida, em NY, antecipa liquidação pré-inverno por conta da crise
Loja na 5ª Avenida, em NY, antecipa liquidação pré-inverno por conta da crise

Três quartos do PIB norte-americano são gerados pelo consumo, que é movido a crédito _e que agora está em falta. Além disso, os americanos nunca estiveram tão endividados: devem US$ 14,5 trilhões e estão hoje bem mais pobres do que há um ano, quando suas ações na Bolsa e o preço de suas casas não tinham começado a despencar.

O quadro atual torna bizarra a discussão sobre se o Estado deve ou não ajudar os bancos em perigo. Não fazê-lo agora seria a pior das alternativas. US$ 850 bilhões (o total do pacote aprovado no Senado dos EUA) eqüivalem a 6% do PIB norte-americano (de US$ 14 trilhões). O valor será financiado por um endividamento maior, algo que tem impacto apenas indireto no dia-a-dia das pessoas e que pode ser equacionado a longuíssimo prazo.

Já uma recessão forte e prolongada terá consequências rápidas e diretas, sobre emprego e renda.

Se isso de fato acontecer, um custo de 6% do PIB pagos a longo prazo teria sido uma pechincha.

*

Abaixo, link sensacional com novo show de didatismo sobre a crise:
http://www.dailymotion.com/swf/k2GEzYKbv1P6IUHSpY

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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