Pensata

Fernando Canzian

19/11/2008

Notícias ruins: uma atrás da outra

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Os preços caíram 1% nos EUA em outubro. O que poderia ser boa notícia há uns oito meses, quando a economia mundial crescia sem parar e a inflação era uma ameaça, é mais um motivo de preocupação na atual crise econômica _que já deixou de ser financeira.

Foi a maior queda em 61 anos de história desse indicador, o CPI. O que isso representa? Deflação.

É um fenômeno que ocorre quando os preços, em vez de subir, incentivando o consumo e o investimento (compro e invisto hoje porque amanhã será mais caro), faz o contrário. Adia as compras e os novos gastos das empresas (se amanhã vai estar mais barato, não preciso comprar e investir hoje).

O indicador mostra que centenas de setores da economia, de lojas a companhias aéreas, de supermercados a revendedoras de automóveis e postos de gasolina estão puxando os preços para baixo na expectativa de atrair consumidores. O resultado será lucros menores e pé no freio dos investimentos, já que ninguém vai fabricar mais produtos se a demanda por eles está tão baixa.

Isso só tende a deprimir a atividade econômica, elevando as expectativas de aumento do desemprego, de perda de renda e de vigor econômico. O Japão viveu fenômeno semelhante durante grande parte dos anos 90. Ficou anos a fio estagnado.

Se isso ocorrer nos EUA, será um desastre para o mundo inteiro. O atenuante é que economia norte-americana é muito mais vigorosa e diversificada do que a japonesa era há uma década e meia atrás. Tem outros vetores que o Japão não tinha.

O mais impressionante na atual crise, porém, não são os números em si. Eles seriam mais do que esperados dado o cerne da questão: a explosão do mercado de crédito, que há muitos anos vem sustentando o maior ciclo de crescimento mundial em mais de 30 anos.

O que surpreende é a velocidade com que a crise vai se instalando. A deflação na maior economia do mundo ocorre em menos de 50 dias do ponto em que a crise de fato deu as caras mais abertamente, no final de setembro. O desemprego também saltou muito rapidamente desde então.

Os indicadores mais recentes (e a velocidade de sua deterioração) sinalizam uma crise que pode ser mais profunda do que a do início dos anos 80, quando a explosão dos preços do petróleo deprimiu várias economias em série. Mas agora é diferente.

Na atual crise, vai ficando cada vez mais claro que o ajuste estrutural norte-americano e em outros países avançados terá de ser feito, daqui em diante, via poupança. É o fim do consumo desenfreado.

Nos últimos anos, as famílias nos EUA (onde o consumo representa 70% do PIB) elevaram suas dívidas de maneira vertiginosa, sustentando o crescimento. Resultado: o país deve hoje pelo menos 50% a mais do que produz em um ano inteiro.

Pior: todo esse consumo e endividamento foram erigidos sobre uma base frágil, quase vazia, de garantias nos bancos que não sustentavam tamanha orgia de empréstimos para seus clientes.

É essa conta que deverá ser paga nos próximos meses ou anos.

Para pagar dívidas com os bancos, também endividados, as famílias devem poupar. Quando se poupa e não se compra, as vendas caem. Quando as vendas caem, as empresas não têm motivos para produzir mais e investir. Quando não produzem ou investem, tendem a demitir. Entre os demitidos, fica ainda mais difícil poupar e pagar dívidas.

É esse ciclo vicioso que está em curso.

Infelizmente, estamos ainda mais perto de seu começo do que de seu fim.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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