Pensata

Fernando Canzian

12/01/2009

Dinheiro pela janela

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de Nova York

A economia norte-americana perdeu 524 mil empregos em dezembro. Os EUA têm agora 11,1 milhões de desempregados, ou cerca de 50% a mais do que há um ano atrás. Nos últimos 12 meses, 2,6 milhões de pessoas foram mandadas embora (1,5 milhão só nos últimos três meses).

Com o resultado do último mês de 2008, o desemprego norte-americano bateu em 7,2%, percentual não visto há 16 anos. Curiosidade: entre os negros, ele atingiu 12%. Entre os hispânicos, 9,2%. Entre os que têm curso superior ou mais do que isso, apenas 3,2%.

O presidente eleito, Barack Obama, toma posse no próximo dia 20 rodeado de forte expectativa. Forma-se, no entanto, enorme conflito entre as esperanças positivas depositadas no que o democrata poderá fazer e a realidade negativa que vai se avolumando no atual desdobramento da recessão americana.

O estopim maior da atual crise foi a quebra do banco Lehman Brothers, em 15 de setembro.

De lá para cá, a administração George W. Bush e o Congresso norte-americano tomaram medidas sem precedentes para tentar deter a avalanche de problemas que assolou o país.

No total, além do pacote de US$ 700 bilhões aprovado pelo Congresso, o Fed colocou mais de US$ 1 trilhão no mercado para tentar destravar a economia.

Mas o mais clássico e poderoso instrumento de estímulo para qualquer economia é a taxa de juros. Pois é horizontal. Quando o juro cai, o dinheiro fica mais barato e não rende tanto nos bancos. Logo, as pessoas e empresas ficam estimuladas a gastá-lo.

Nos EUA, além de todas as medidas já adotadas, a taxa de juros foi decepada com violência. Hoje, ela é menor do que a inflação. Está entre 0 e 0,25%. Significa que quem deixar o dinheiro depositado em uma aplicação vai, na prática, ver suas economias perderem valor em relação aos preços. Pelo menos por enquanto.

Os resultados de todas essas ações, no entanto, ainda não apareceram, como demonstram o desemprego de dezembro e as expectativas para os próximos meses. Aparentemente, ainda será necessário algo mais. O problema é exatamente esse: o quê?

A principal medida que vai ganhando corpo na nova administração é um pacote de estímulo fiscal (corte de impostos) de até US$ 300 bilhões para empresas e indivíduos.

No caso das pessoas físicas, onde o pacote teria maior impacto dada a capilaridade e extensão de seu alcance, a ideia é reduzir em até US$ 500 os impostos cobrados de cada indivíduo e US$ 1.000 de cada família. Isso colocaria "cash" (dinheiro vivo) diretamente no bolso das pessoas, o que seria um belo estímulo para gastar e reaquecer a economia.

A ideia parece ser boa, exceto pelo fato de que uma série de estudos relativos a pacotes desse tipo no passado (em escala menor) indica que apenas cerca de um terço do dinheiro novo disponível para pessoas e famílias acaba no caixa das lojas e supermercados.

E quanto maior o medo do desemprego (que hoje é enorme), menor tende a ser o gasto. As famílias preferem poupar as sobras adicionais para pagar dívidas ou à espera de dias piores.

É possível que Obama tenha outras cartas na manga para reaquecer a economia. Assim, poderia conciliar a forte expectativa positiva em relação à sua administração com uma tendência de recuperação econômica. Pois o risco de decepção é enorme.

Do ponto de vista ortodoxo, porém, os EUA praticamente chegaram ao limite. Todos os grandes "canhões" e armas destinados a estimular a economia foram disparados.

Será preciso muita criatividade para que mais dólares cheguem ao bolso dos americanos.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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