Pensata

Fernando Canzian

26/01/2009

Solução para a crise?

Publicidade

Os EUA deram uma grande volta a partir do final de setembro para chegar ao mesmo ponto agora sobre qual medida seria mais efetiva contra a pior crise econômica desde os anos 1930.

Aos poucos o cenário vai desanuviando. Ao que tudo indica, o governo de Barack Obama está considerando um caminho complexo e que custará bilhões de dólares ao contribuinte norte-americano. Embora tenha chances de dar resultado, ele provavelmente levará ainda muito tempo para colocar a economia de volta aos trilhos.

No início de outubro, o então secretário do Tesouro dos EUA, Henry Paulson, solicitou US$ 700 bilhões ao Congresso para o chamado Tarp (Troubled Asset Relief Program, ou programa de recuperação de ativos problemáticos).

Paulson vendeu o plano da seguinte maneira: o governo usaria o dinheiro para comprar dos bancos os chamados ativos "tóxicos" (carteiras de empréstimos mal feitos, sem garantias suficientes), que estavam causando rombos bilionários nas instituições.

Por essa estratégia, os bancos se livrariam desse "lixo" e deixariam suas carteiras de empréstimos limpas e saudáveis, prontas para poderem, com um nível maior de responsabilidade, voltar a emprestar dinheiro a empresas e consumidores.

Nunca é demais lembrar que o cerne dessa crise é o crédito, que travou justamente porque os bancos têm rombos enormes a cobrir e temem aumentá-los emprestando mais dinheiro (e correndo novos riscos) com novas concessões de crédito.

Uma série de problemas levou Paulson a mudar a estratégia. O principal deles era quanto pagar aos bancos pelos ativos "tóxicos". Muitos deles de fato não valem mais nada. Diante do impasse, o ex-secretário de Bush parece ter recorrido à saída mais fácil: injetou diretamente dinheiro em cerca de 260 bancos, sendo que os sete maiores receberam mais de 60% do total.

Em troca, o governo recebeu dos bancos as chamadas "prefered stocks". Grosso modo, elas garantem alguns privilégios em relação aos demais acionistas em termos de rendimento e ressarcimento no caso de o banco entrar em processo de falência. Os detentores das "prefered stocks" estão no topo da lista dos que devem ser ressarcidos.

Se a estratégia de Paulson teve o efeito de acalmar quem achava que seu banco iria quebrar e de adiar temporariamente os problemas de caixa deles (que agora reaparecem), ela fracassou completamente em seu principal objetivo: fazer os bancos voltar emprestar. Com tantos rombos a cobrir por causa dos ativos "tóxicos", os bancos entesouraram o dinheiro estatal para se proteger.

Agora, ao que tudo indica, a equipe de Obama vai retomar os objetivos iniciais do Tarp, e atacar diretamente a questão dos ativos "tóxicos" que travam as carteiras de empréstimos dos bancos. O entendimento crucial é que economia vai continuar afundando enquanto o crédito não voltar a fluir.

No final dos anos 1980 e início dos 1990, os EUA viveram uma crise semelhante à atual, embora muito mais localizada e longe das proporções dantescas que nos choca agora. Na época, vários bancos, chamados de "zombie banks", eram literalmente "mortos vivos" por causa de empréstimos mal feitos.

Para resolver o problema, o governo criou uma agência, a RTC (Resolution Trust Corporation), que assumiu totalmente os ativos podres desses bancos. Foram gastos à época cerca de US$ 130 bilhões com os títulos "tóxicos".

Ao contrário do que Paulson fez ao injetar dinheiro em troca das "prefered stocks", na época os "zombie banks" foram nacionalizados (e essa é a palavra correta) pelo governo dos EUA --embora ninguém tenha dito isso com todas as letras. Aos acionistas antigos foram impostas perdas sem compensações e os dirigentes acabaram afastados. Depois de limpos, os bancos foram vendidos a outros investidores, absorvidos pela concorrência ou simplesmente desapareceram.

A vantagem da estratégia na linha da RTC é que o governo não precisa em um primeiro momento avaliar quanto valem os ativos podres. E pode, mais à frente, tentar recuperá-los e vendê-los quando a economia voltar a crescer.

É bom lembrar que esses ativos são garantidos por dívidas de quem eventualmente perdeu o emprego ou o imóvel em que morava e que, por isso, deixou de pagar pelo empréstimo. Se o sujeito se recupera mais à frente, pode voltar a honrar seus débitos _e sua dívida eventualmente deixa de ser "tóxica".

O grande problema atual nessa estratégia é que não estamos falando de bancos médios, pequenos e regionais nos EUA, mas de gigantes como Citigroup e Bank of America. Se algo como a criação da RTC for adotada, dificilmente será possível escamotear o termo "nacionalização", que, aliás, já é abertamente discutido nos EUA.

Outra alternativa em estudo é que o governo assuma os ativos "tóxicos" dos bancos e os converta em títulos que podem ser depois transformados ou não em ações com poder de voto nas instituições. Isso aumentaria o poder de pressão sem que o Estado assuma os bancos na prática.

Os EUA e o mundo certamente sairão diferentes dessa crise, até em termos ideológicos, e adotarão mecanismos mais rígidos de controle financeiro. Não há como escapar disso após tanto susto e prejuízos para os contribuintes.

Até que, daqui a muitos anos, haja um relaxamento natural e a coisa estoure novamente --inaugurando um novo ciclo.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca