Fernando Canzian
Garimpando boas notícias
NOVA YORK - A polícia da Flórida interditou mais de cem casas usadas por traficantes como "estufas" para plantar maconha. Mais de 3.000 pés de cannabis sativa eram cultivados nessas residências. As casas estavam vazias, assim como outras 19 milhões nos EUA. São imóveis retomados por bancos devido à falta de pagamento dos mutuários, hoje abandonados e degradados.
No epicentro da atual crise, o mercado imobiliário nos EUA ainda não se estabilizou. Os bancos também não. Menos ainda o mercado de trabalho. A confiança dos consumidores permanece no chão.
![]() |
Mas começam a brilhar algumas réstias de sol em meio a nuvens muito carregadas. Se não chegamos ao fundo do poço, ao menos a velocidade da queda está diminuindo. Não no emprego, infelizmente, mas ele tem sido um reflexo um pouco tardio do corte na produção. E é natural que mais demissões ocorram, até que se atinja um novo patamar industrial e de consumo, mais baixo.
Mas, como toda crise, essa terá um fundo.
Embora fundamental, a notícia mais positiva das últimas semanas é invisível para o grande público. Em janeiro, os investidores privados voltaram com apetite ao mercado de "bonds" (títulos) que as empresas norte-americanas emitem para financiar operações no dia-a-dia, como comprar matéria prima e pagar salários (em troca, as companhias pagam uma remuneração aos investidores).
Até dezembro, só o Fed (o banco central dos EUA) estava comprando esses papéis. E em caráter emergencial, pois investidores privados saíram de cena, deixando as empresas no deserto. No mês passado, as companhias levantaram US$ 335 bilhões com investidores privados. Isso significa uma volta da confiança, pois ninguém colocaria dinheiro no papel de uma empresa esperando que ela quebre.
A ação coordenada dos principais bancos centrais do mundo em cortar rapidamente os juros básicos também resultou em avanços: há alívio nos mercados de dinheiro de curto prazo, incluindo o entre bancos (interbancário), onde os "spreads" (custos de captação e empréstimo) caíram muito nas últimas semanas.
A outra notícia positiva é que em pouco mais de três meses as maiores economias do mundo lançaram pacotes de estímulo inimagináveis. Com a provável aprovação do plano norte-americano nesta semana (quase US$ 800 bilhões), os 21 maiores países estarão injetando a fundo perdido quase US 2 trilhões para tentar frear a crise ou recuperar a economia mundial.
![]() |
O dinheiro vai para obras de infraestrutura, subsídios tributários, programas de seguro-desemprego e outros colchões sociais. Se forem rapidamente empregados (isso é outra dificuldade), esses recursos representam alguma chance de batermos no tal fundo do poço com menos força --e de ele chegar um pouco antes.
Os EUA também parecem ter chegado a uma conclusão sobre como ajudar os bancos. Aparentemente, o Estado recompensará perdas que investidores privados eventualmente tiverem ao injetar dinheiro neles (como uma seguradora). Assim, o governo não precisaria disponibilizar imediatamente imensas quantias de dinheiro. E recursos públicos seriam usados só mais à frente, quando as perdas efetivas forem contabilizadas. A ver, já que detalhes ainda devem ser conhecidos.
Não é fácil o esforço de garimpar boas notícias nessa crise. Mas, olhando para o Brasil, é um pouco menos difícil.
Embora o país tenha anunciado em janeiro o pior resultado da balança comercial desde novembro de 2000 e o primeiro déficit mensal desde março de 2001, o Brasil ainda vai se saindo relativamente bem. Nosso "calcanhar de Aquiles" é ficar muitos meses com essa conta comercial no vermelho, abrindo cada vez mais o rombo das contas externas (grosso modo, da "conta bancária" nacional em dólares).
O déficit é reflexo da retração da demanda mundial. Antes, o mercado previa superávit comercial de US 14 bilhões neste ano. Não mais. Mas a grande "vantagem" do Brasil nessa área é que nossas exportações equivalem a somente 14% do PIB. Ou seja, uma queda significativa nas exportações tem um impacto relativamente pequeno na economia.
No Chile, esse percentual chega a 45%. Na Coreia do Sul, a 60%. Na China, a 30%. Isso torna esses países bem mais vulneráveis.
Em 2008, cerca de 65% da pauta de exportações do Brasil ficou concentrada no setor de commodities. Mas ele também parece estar encontrando um piso de baixa, com alguma expectativa de valorização. Daí a inesperada alta neste início de ano da Bovespa, onde 70% de seu índice depende do desemprenho de empresas relacionadas às commodities.
Por fim, embora o Brasil esteja certamente lento na redução dos juros, o sistema financeiro permanece sólido e há agilidade no reforço do caixa do BNDES.
Do pacote total contra a crise de R$ 189 bilhões anunciado até agora, o BNDES ficou com R$119 bilhões e a missão de suprir a demanda por crédito que não for atendida pelos bancos privados. A análise do governo brasileiro, que parece coerente, é que o problema será mais a falta de crédito do que o de apetite para consumir no Brasil.
Boas notícias existem. As más são mais contundentes e em maior número.
É imperativo, porém, "ouvir" sempre o "outro lado". Exige a consciência e o "Manual da Redação" da Folha.
![]() |
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |



