Pensata

Fernando Canzian

10/02/2009

O primeiro fiasco de Obama

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EM NOVA YORK - Aguardado até com mais expectativa do que o pacote de US$ 838 bilhões finalmente aprovado pelo Senado dos EUA, o novo plano de ataque à crise bancária dos EUA revelou-se um grande fiasco. Pelo menos até agora.

O novo secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, "apresentou" o pacote nesta terça. Não há detalhamento de nada. Nem de prazos ou valores que poderão ser comprometidos para tentar tirar os bancos do buraco, fator crucial para resolver a atual crise, ou de pontos menos importantes. É um "pastel de vento", sem recheio algum.

Quase 80 dias se passaram desde a eleição de Obama e a sua posse. Também correram quase dois meses entre o aprofundamento da crise, em setembro, e a eleição do democrata. No entanto, o plano para os bancos anunciados ontem torna o PAC de Lula e suas PPPs (Parcerias Público-Privadas, ou "Público-Paradas") um primor de detalhamento perto do que foi apresentado.

A pretensão norte-americana é movimentar mais de US$ 2 trilhões com o novo plano, mas as quantias minimamente detalhadas chegam a pouco mais de US$ 500 bilhões. Ninguém (nem os jornais especializados) entendeu direito os valores e como serão empregados.

As medidas incluem a criação de uma espécie de "banco podre" (batizado de Fundo de Investimento Público-Privado). Patrocinado pelo Estado, é o ponto mais obscuro e mal explicado do pacote. Devia ser o mais detalhado e fundamental.

Os EUA só estão hoje na situação em que se encontram porque não se sabe exatamente o que fazer com esses ativos. Eles arruinaram os balanços dos bancos e impedem a volta dos financiamentos. Aparentemente, a equipe de Obama também não tem muita ideia.

O Fundo "PPP americano", disse Geithner, assumiria papéis "tóxicos" dos bancos entre US$ 500 bilhões e US$ 1 trilhão. E teria "participações privadas". Não houve qualquer detalhamento de como o governo atrairia os investidores, nem com quanto entraria inicialmente. É inacreditável.

Ansiosamente aguardadas, as medidas foram apresentadas em um discurso genérico de Geithner. O único documento público a seu respeito não chega a ter sete páginas completas.

Como era de se esperar, a Bolsa de Valores de Nova York reagiu mal ao anúncio do Tesouro. O índice Dow Jones despencou 4,6%, com os bancos liderando as baixas.

De concreto no pacote do Tesouro, batizado de Plano de Estabilização Financeira, há os seguintes pontos, com suas respectivas ressalvas:

Socorro aos bancos: O Tesouro já tem o sinal verde do Congresso para gastar outros US$ 350 bilhões com injeções diretas nos bancos. Algo semelhante foi feito durante o último trimestre de 2008, quando cerca de 300 bancos e empresas receberam mais de US$ 335 bilhões para reforçar seus balanços, destroçados pelos ativos "tóxicos".

Quatro dos maiores bancos dos EUA (Bank of America, Citigroup, JPMorgan Chase e Wells Fargo) viram seu valor de mercado encolher US$ 335 bilhões mesmo depois de terem recebido US$ 140 bilhões do Tesouro -- já que os ativos "tóxicos" continuaram arruinando seus balanços.

Linha de crédito: o Tesouro vai "recauchutar" uma linha de financiamento criada há meses e ainda não utilizada para tentar aumentar o crédito ao consumo no país. Para isso, serão disponibilizados US$ 100 bilhões em dinheiro público. Esse dinheiro pretende "alavancar" (incentivar, funcionando como garantia) até US$ 1 trilhão em novos empréstimos no sistema financeiro.

Candidamente, o Tesouro não deu nenhum detalhe, mas parece estar contando que investidores e bancos usarão apenas US$ 1 de garantia estatal para "alavancar" outros US$ 10 em empréstimos, como fariam em condições normais. Com os rombos em seus balanços, além da recessão e do desemprego, é bastante discutível se correrão esse risco em novas concessões de financiamentos. É muito otimismo.

Socorro a mutuários: o plano inclui US$ 50 bilhões para refinanciar dívidas de mutuários que estão na iminência de perder seus imóveis por causa de atrasos no pagamento de financiamentos. Problema: apesar de muitos bancos já estarem fazendo isso com recursos próprios, as ações judiciais contra mutuários não têm diminuído, principalmente contra quem vinha comprando dois ou mais imóveis financiados.

O Tesouro ficou de apresentar novos detalhamentos do pacote nos próximos dias. Para o bem de todos, é torcer para que não leve mais quatro meses.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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