Fernando Canzian
O "pacotão" de Obama
DE NOVA YORK - No detalhamento do pacote de US$ 787,2 bilhões do presidente dos EUA, Barack Obama, os cortes de impostos (US$ 301,2 bilhões) são individualmente o item de maior valor, seguidos, de longe, por saúde (US$ 90 bilhões), educação (US$ 72,5 bilhões) e transporte e moradia (US$ 61,8 bilhões).
Além de revelar uma vitória parcial republicana, que insistiu no corte de impostos diretos, o plano é menos ambicioso do que se imaginava para tentar segurar a onda de despejos que ocorre nos EUA.
Em 2008, 2,3 milhões de imóveis no país receberam notificações judiciais (expedidas por Cortes) informando que o dono do imóvel, geralmente um banco, iria retomá-lo e que o mutuário havia perdido o direito sobre ele. O processo, conhecido como "foreclosure", poderá, no ritmo atual, envolver mais de 3 milhões de residências nos EUA ao longo de 2009.
Já há casos de velhas senhoras se algemando nas varandas de suas casas para não serem despejadas e de xerifes de Estados importantes decidindo por conta própria suspender os despejos durante o rigoroso inverno norte-americano.
O não-estancamento do caos no mercado imobiliário dos EUA durante o governo de George W. Bush é a principal causa da atual crise. O "boom" vivido nesse mercado foi convertido em milhões de novos mutuários. E suas dívidas, "empacotadas" em bilhões de dólares em títulos vendidos pelos bancos ao redor do mundo.
No geral, o "pacotão" de Obama é uma grande salada. É esperar que o plano, vendido para recuperar ou manter 3,5 milhões de empregos, não fique parado na burocracia.
Há de tudo: de US$ 50 milhões para caçar pervertidos sexuais e US$ 1 bilhão para a Nasa (pois a crise é na Terra) a US$ 90 bilhões para a área de saúde e US$ 651 milhões para pequenas e médias empresas.
No dia da assinatura do plano, a Bolsa de Valores de Nova York caiu mais de 4%. Foi um dia horrível para os mercados no mundo inteiro.
A ponto de repercurtir a renúncia do ministro das Finanças do Japão, Shoichi Nakagawa, que pediu demissão após aparecer de porre (é a crise e o sujeito é humano...) na coletiva do G7, grupo dos países mais ricos do mundo.
Para quem tiver interesse, segue um resumo do pacote, elaborado pelo "The Wall Street Journal" (em vermelho, gastos; em azul, doações; em verde, incentivos tributários).
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
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