Pensata

Fernando Canzian

23/02/2009

Bancos: a maior escolha de Obama

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DE NOVA YORK - É por meio do sistema bancário que os recursos da sociedade, cidadãos e empresas, são canalizados de forma ordenada para o setor produtivo.

Na maioria dos casos, as empresas e os consumidores precisam de financiamentos para ampliar uma fábrica ou comprar um automóvel sem que tenham todo o dinheiro para fazê-lo à vista. São os bancos que exercem esse papel. Eles ganham a vida nessa organização das finanças e na intermediação entre a captação de dinheiro na sociedade e sua distribuição entre quem necessita dele.

Em vários países do mundo, mas nos EUA principalmente, esse elo está literalmente quebrado.

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Fachada do banco JP Morgan Chase; setor corre risco de estatização nos EUA
Fachada do banco JP Morgan Chase; setor corre risco de estatização nos EUA

Os quatro maiores bancos norte-americanos (Citigroup, Bank of America, JPMorganChase e Wells Fargo) já receberam US$ 140 bilhões em dinheiro público desde outubro. Mesmo assim, o valor de mercado desses bancos encolheu em mais de US$ 400 bilhões (um terço do PIB do Brasil) desde então.

Além de terem recebido esses US$ 140 bilhões em injeções frescas de capital, o Tesouro dos EUA vem bancando 100% das emissões de títulos desses bancos para que eles possam se financiar. Ao todo, já foram levantados mais US$ 168 bilhões.

Na prática, é como se os bancos agissem como o próprio Tesouro (pois o órgão garante as dívidas), só que o dinheiro é usado por eles sem uma estreita supervisão federal.

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O governo dos EUA já é, individualmente, o maior acionista do Bank of America
Governo já é o maior acionista individual do Bank of America

O presidente Barack Obama tem pela frente talvez a principal decisão de seu governo, que mal começou. Como restaurar o elo bancário que faz a principal economia do mundo girar? E nos EUA, mais do que qualquer outro país do mundo, a economia é movida a crédito.

Como sinal da fragilidade do sistema bancário no país, a FDIC, agência federal que regula o sistema, também já liquidou só nos primeiros 40 dias de 2009 o equivalente à mais da metade dos bancos fechados em 2008 inteiro.

Neste ano, foram extintos 13 bancos, 7 fechados só na primeira semana de fevereiro, o maior número em um mês desde 1993. Aos acionistas foram impostas perdas totais e as agências, distribuídas entre os concorrentes, assim como as contas. A expectativa é que até 1.000 dos 8.348 bancos dos EUA sejam liquidados nos próximos três anos pela FDIC.

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Lojas fazem liquidação para fechar; recessão começou em 2007
Lojas fazem liquidação para fechar; recessão começou em 2007

Mas o grosso do problema está, obviamente, nos grandes bancos. São eles que concentram a imensa maioria dos chamados ativos "tóxicos" que travaram o sistema financeiro norte-americano e que são a causa da atual crise, considerada a maior desde os anos 1930.

Os títulos "tóxicos" são resultado de empréstimos feitos pelos bancos sem garantias reais suficientes e largamente lastreados pelo setor imobiliário, onde os preços das casas estão em queda livre há dois anos. Em alguns casos, um único dólar em garantia real dada ao banco chegou a financiar outros US$ 35 em empréstimos.

Para voltarem ao normal e retomar financiamentos ao consumo e à produção, esses bancos precisam ser limpos desses ativos. O principal problema é que o governo não chegou ainda à conclusão sobre quanto pagar pelos títulos "tóxicos" e como proteger o contribuinte das perdas.

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Por isso, muitos defendem a opção de estatizar os bancos. Já que o governo está colocando dinheiro público para salva-los, nada mais justo, dizem, do que repartir esse investimento (se ele vier a ser bem sucedido) com quem o financiou: a sociedade como um todo.

O governo dos EUA já é, individualmente, o maior acionista do Bank of America. Agora estuda tomar uma participação de até 40% no Citigroup. Se não estatizar, será o equivalente a você ser a pessoa que mais colocou dinheiro na compra de uma casa, mas que continuará deixando morar nela indivíduos que já arruinaram o imóvel.

Estatização é um palavrão nos EUA. Dos feios. E a Casa Branca tem feito de tudo para tentar evitar esse caminho. Mas, se adotada, o governo não precisa "precificar" os ativos "tóxicos" e isso resolve um problema imenso. Além disso, imporia perdas totais aos acionistas que fizeram apostas arriscadas, afastaria os dirigentes e poderia mais à frente, depois de limpo, revender o banco.

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Nesta segunda (23.fev.), logo as 9h00 da manhã, o Tesouro dos EUA divulgou comunicado dizendo que poderá injetar mais dinheiro nos bancos por meio das chamadas "prefered stocks", que deixam aberta a possibilidade de uma estatização imediata, se necessário. Para isso, é só converter os papéis em ações comuns e o governo terá a imensa maioria do controle.

O maior temor dos EUA, já verbalizado por Obama, é que o país mergulhe em uma espiral recessiva parecida com a do Japão nos anos 1990.

No país asiático, isso ocorreu justamente porque o governo titubeou ao atacar uma crise bancária parecida com a atual nos EUA. A tal intermediação do dinheiro da sociedade para o setor produtivo ficou comprometida e o Japão perdeu uma década estagnado.

Outro exemplo mais ou menos da mesma época foi a Suécia, que resolveu rapidamente estatizar bancos com problemas, o que acelerou a saída da crise.

Embora relutem em falar no assunto, os EUA na prática já estatizaram nesta crise a seguradora AIG (o governo tem 80%) e as gigantes do setor imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac. No Reino Unido, o governo também assumiu o controle do banco Northern Rock e agora estuda ir no mesmo caminho com o Royal Bank of Scotland.

Mais uma vez, são tempos extraordinários, que têm exigido medidas extremas.

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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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