Pensata

Fernando Canzian

02/03/2009

Estatização e formato da crise

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A virtual estatização do Citigroup na semana passada marcou um novo divisor de águas na atual crise internacional. Um dos maiores bancos do mundo e símbolo do capitalismo norte-americano passou a receber ordens do Estado sobre o que pode ou não fazer.

Os EUA detêm agora 36% do Citi. O governo já fez o banco recuar da compra de um avião de US$ 50 milhões, limitou os salários e bônus da cúpula e agora exige a troca da diretoria. Se isso não é estatização, será preciso inventar um neologismo para explicar o que é então.

O Citigroup já recebeu US$ 45 bilhões em dinheiro público, e os 36% de participação estatal equivalem a apenas US$ 25 bilhões desse total. As injeções foram feitas via "preferred stocks" (ações preferenciais). Ao serem convertidas em ações comuns, elas dão direito a voto no banco. Ou seja, se precisar, o governo por aumentar ainda mais o controle com os US$ 20 bilhões restantes.

Estão na mesma situação os três outros maiores bancos dos EUA: Bank of America (que recebeu US$ 45 bilhões), JPMorganChase (US$ 25 bilhões) e Wells Fargo (US$ 25 bilhões), além de quase 200 outras pequenas e médias instituições.

Em todos esses casos, está aberta a opção de converter esses recursos, injetados via "preferred stocks", em ações ordinárias, com o Estado assumindo grande parte do controle.

Nesta semana será conhecido um dos números mais horrorosos dessa crise: o prejuízo, no último trimestre de 2008, da American International Group (AIG), a maior seguradora do mundo. A expectativa é de algo na ordem de US$ 60 bilhões (em um trimestre!), o dobro do que a combalida General Motors perdeu em 2008 inteiro.

Embora se fale muito em bancos e na falta de crédito, o caso da seguradora AIG é dramático e exemplar de como esta crise foi gestada. A empresa foi estatizada pelos EUA em setembro. De lá para cá, já recebeu US$ 150 bilhões e há mais US$ 30 bilhões a caminho.

Por trás da AIG, existem milhões de perdas potenciais armazenadas nas carteiras de centenas de bancos ao redor do mundo. Se ela quebrar, a situação atual, dramática, ficará muito pior.

No "boom" do mercado imobiliário nos EUA, a AIG se engajou em operações heterodoxas, como "emprestar", em troca de comissões, sua chancela "triple A" ("AAA") para papéis emitidos por bancos e lastreados em dívidas imobiliárias --que estão na raiz da atual crise e são a gênese dos ativos "tóxicos" que hoje entopem os bancos.

A classificação "AAA" facilitou a negociação de vários desses papéis no mercado, mas a AIG acabou se tornando responsável direta por grande parte das perdas que vieram depois.

A AIG também entrou fundo no mercado de "credit-default swaps" (CDS), instrumento financeiro exótico que funciona como uma espécie de seguro para perdas em investimentos que dão errado. Como os CDS não eram regulados pelas autoridades, a AIG não fez o que costuma fazer com os seguros contra incêndio ou roubo, por exemplo: provisões para eventuais perdas.

A empresa simplesmente vendia pesado CDS sem fazer as provisões que poderiam cobrir as perdas. Quando milhões de investidores em vários países do mundo perderam apostas e foram cobrar o seguro para suas aplicações da AIG, a empresa não tinha caixa suficiente para bancar os prejuízos.

Os socorros bilionários já repassados à AIG são vistos como a provável convicção, por parte do Tesouro dos EUA, de que a AIG simplesmente não pode quebrar.

Se não honrar os "credit-default swaps" de milhões de investidores em dezenas de países, o sistema financeiro global poderá sofrer um novo e mais devastador colapso.

*

A pergunta de 1 milhão de dólares agora é saber qual será o formato desta crise. A verdade é que ninguém sabe.

As opções: em V, com uma forte queda seguida de recuperação. Em U, com queda e recessão prolongada antes da volta ao crescimento. Ou em L, queda e crescimento medíocre por um longo tempo.

Essas são as três letras geralmente usadas para exemplificar graficamente os vários tipos de recessão.

Tomara que um Y não acabe ingressando nesse sinistro alfabeto.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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