Fernando Canzian
Caça às bruxas nos EUA
EM NOVA YORK - O presidente Barack Obama diz estar com raiva. O Congresso também. O contribuinte norte-americano, mais raivoso ainda. Tudo por conta dos bônus pagos a executivos de Wall Street, cujas casas bancárias receberam bilionárias ajudas estatais.
A onda de caça às bruxas nos EUA cresceu após a revelação de que 73 executivos da seguradora AIG (American International Group) receberam mais de US$ 1 milhão cada em bônus. Isso depois de a empresa ter sido socorrida com US$ 173 bilhões em dinheiro estatal (quase as reservas em dólar do Brasil).
A AIG é a maior seguradora do mundo e está quebrada. Fez operações exóticas ao redor do planeta nos últimos três anos, mas não teve "bala" para segurar os prejuízos. Seu atual presidente, Edward Liddy, foi indicado pelo governo dos EUA, que detém agora 80% da AIG. Liddy já considera pedir escolta policial com medo de ser agredido.
| Mike Luckovich/Atlanta-Journal Constitution | ||
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| Ex-executivo de Wall Street procura refúgio na caverna de Bin Laden. "Ache uma para você", diz o terrorista |
Foi Liddy quem autorizou o pagamento dos bônus aos executivos que ajudaram a quebrar a AIG. E fez isso mesmo depois da bilionária ajuda estatal.
Detalhe: tanto Obama quanto seu secretário do Tesouro, Timothy Geithner, sabiam que o pagamento seria feito. E concordaram com ele. Geithner chegou a dizer publicamente que o governo teria problemas legais caso os bônus não fossem pagos.
Diante da reação popular e do Congresso, que considerou um "ultraje" os bônus, Obama recuou. Covarde, deixou seu secretário na mão ao dizer que também sentia "raiva, muita raiva", pelo pagamento dos bônus.
Reação idêntica partiu do mais covarde ainda presidente do Comitê de Bancos do Senado, o democrata (partido de Obama), Christopher Dodd.
Detalhe 2: depois de negar peremptoriamente, Dodd teve de assumir que participou ativamente do afrouxamento do pacote de ajuda a bancos no que se refere às restrições ao pagamento de bônus a executivos.
Quem pediu o afrouxamento e a permissão para manter os bônus? O próprio Tesouro, com o conhecimento de Geithner, Obama e Dodd.
Detalhe 3: o senador Dodd recebeu vultosas contribuições de campanha de grandes bancos agora socorridos.
Detalhe 4: a AIG só se enrolou nas operações exóticas em que se meteu graças à ação do principal assessor econômico de Obama na Casa Branca, Lawrence Summers.
| The Economist | ||
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| Diante de contribuintes raivosos com os bônus, Obama "passa o chapéu" pedindo mais dinheiro para os bancos |
Ex-secretário do Tesouro do também ex-presidente democrata Bill Clinton, Summers foi contra a regulamentação estatal que restringira o tipo de operação que a AIG fez. Ele também trabalhou para um "hedge fund", o D.E. Shaw, totalmente enfronhado no mesmo tipo de negócios exóticos da AIG.
A conta de todos os pacotes (e bônus) recairá sobre o contribuinte norte-americano.
Tão inocente assim?
Na última década, os EUA se transformaram, basicamente, em um país de endividados. Emprestaram e gastaram absurdamente sem poupar. Em 1980, os americanos poupavam em média 9% do que ganhavam. A poupança caiu a 5% nos anos 1990. Até encolher a míseros 0,6% em 2007.
No período, os norte-americanos não acumularam riquezas, mas dívidas monumentais. Sempre especulando, esperando que suas ações na Bolsa valessem cada vez mais na comparação com suas dívidas. E comprando casas que, em situações normais, jamais poderiam pagar.
A ambição pela riqueza fácil não estava só em Wall Street.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |


