Fernando Canzian
O ataque da rua
NOVA YORK - Demorou, mas foram os próprios líderes mundiais que deram a deixa e armaram o palco para a volta dos protestos de rua há muito adormecidos.
Há quase dez anos não se via o que ocorreu em Londres nesta semana por conta da reunião do G20, grupo de países (Brasil incluso) que respondem por 80% do PIB global. As últimas manifestações do tipo, contra a OMC (Organização Mundial do Comércio), o FMI e Banco Mundial já estavam quase entrando para os livros de história contemporânea.
| Andrew Winning/Reuters |
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| Manifestantes atiram tela de computador contra janela do (RBS) Royal Bank of Scotland |
Enquanto os líderes mundiais chegam à reunião do G20 com expectativas e propostas divergentes, a rua mostrou que sua agenda, embora difusa, está bem definida: quebradeira e revolta geral contra o estado das coisas.
Contra um empobrecimento que pode ter sugado US$ 50 trilhões da riqueza mundial. Sem falar em milhões de demissões, perda de residências, corte em limites de cartões de crédito e no escárnio dos bônus pagos a executivos das empresas falidas --a recompensa aos que provocaram a maior crise mundial desde a Grande Depressão.
Tudo isso se materializou mais uma vez nas ruas, ainda que de forma talvez incipiente, às barbas do convescote do G20. Encontro que, aliás, reproduz outro parecido, também na capital britânica, em 1933, no auge da Grande Depressão. Para a infelicidade geral, ele não deu em nada.
| Ian Langsdon/Efe |
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| Polícia entra em confronto com grupo que protesta em frente ao Banco da Inglaterra |
Os alvos dos protestos foram o RBS (Royal Bank of Scotland) e a sede do Banco da Inglaterra, pivôs da perda de bilhões de libras dos contribuintes britânicos na atual crise financeira global. Janelas foram despedaçadas e portas arrombadas em meio à gritaria geral. Outros bancos secundários também sofreram com a fúria dos manifestantes.
Simbolicamente, os descontentes também se reuniram e trocaram sopapos com a polícia em Trafalgar Square. Na praça, no coração de Londres, repousa a estatua do almirante inglês Nelson. Em 1805, na costa da Espanha, Nelson derrotou as armadas francesa e espanhola, barrando o poder imperial de Napoleão no Atlântico.
| AP/Reprodução |
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| Delegação francesa participa de conferência entre as grandes potências em 1933, em Londres, no auge da Grande Depressão |
No final de abril, haverá outro encontro de caráter global. Desta vez em Washington, quando o FMI e o Banco Mundial devem se reunir. Não é pequena a chance de novos protestos, principalmente porque nos EUA a situação geral é muito pior do que no resto do mundo desenvolvido.
Ao contrário de Europa e Japão, os EUA não têm redes de proteção social ou segurança mínima na área do emprego. E as demissões no país não cessam. A expectativa é que superem 750 mil em março, sobre quase 1,2 milhão em janeiro e fevereiro. A sangria entrou em uma velocidade sem precedentes.
Muitos dos que torciam pela chegada do fundo do poço começam a por as barbas de molho. O Banco Mundial já fala em retração global de 1,7% em 2009, quase o dobro da prevista pelo FMI há um mês. A OCDE, que reúne os países mais desenvolvidos, em -2,75%.
Não é recomendável torcer ou apoiar a quebradeira de bens privados ou públicos, mas o fato é que essa onda pode estar começando. No passado, os manifestantes contrários ao FMI, Banco Mundial e OMC protestaram muitas vezes incentivados por questões ideológicas, abstratas ou idiotas.
Desta vez, as razões são dolorosamente palpáveis.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |




