Pensata

Fernando Canzian

23/04/2009

Bancos e o mapa da crise

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DE WASHINGTON - Em entrevista hoje na sede do FMI (Fundo Monetário Internacional), seu diretor-gerente, o francês Dominique Strauss-Khan, foi direto ao ponto: a crise não só está muito longe do seu fim como não nos abandonará enquanto o problema dos bancos não estiver resolvido.

Como "problema dos bancos" entenda-se o entupimento do mercado de crédito nos EUA.

Desde setembro passado, quando o mundo caiu no precipício desta crise, houve duas reuniões do G20 (grupo que reúne as maiores economias do mundo) e esta é a segunda vez que o FMI também se reúne em Washington.

Embora muitos países tenham adotado medidas sem precedentes para combater a crise, colocando cerca de US$ 2 trilhões (quase duas vezes o tamanho da economia brasileira) em estímulos para o consumo, produção e gastos em infraestrutura, a resolução do "problema dos bancos" sequer começou.

Bancos são importantes porque (quando trabalham direito) organizam os recursos existentes na economia, canalizando dinheiro para quem quer produzir ou consumir. Fazem isso via empréstimos, que funcionam como aceleradores do crescimento.

E são exatamente os empréstimos que estão congelados por causa da montanha de "ativos tóxicos" (resultado de operações exóticas com títulos mais exóticos ainda) que entope os bancos.

O FMI estima que esses "ativos tóxicos" devem somar US$ 2,8 trilhões só nos EUA, e até US$ 4 trilhões em todo o mundo. É uma enormidade. Até aqui, os bancos conseguiram se livrar (ou ao menos reconhecer a existência) de apenas US$ 1 trilhão deles, principalmente recebendo injeção de dinheiro público.

Mais de seis meses correram desde que o "problema dos bancos" foi plenamente entendido. Ao que parece, ninguém sabe ao certo como sair dele, o que torna qualquer previsão sobre o futuro da economia global altamente nebuloso.

De onde virá o dinheiro para comprar esses "ativos tóxicos" dos bancos? Quem amargará o prejuízo?

No final, vai ficando meio óbvio que os governos (e os contribuintes), principalmente nos EUA, terão de enfiar todo esse dinheiro nos bancos.

Acabarão salvando justamente os que fizeram toda essa lambança.

*

Apesar das incertezas, o FMI continua dando pitacos sobre como o mundo vai se comportar.

O Fundo espera agora a primeira contração global do período pós Segunda Guerra. O mundo encolheria 1,3% em 2009, mesma previsão para a retração do Brasil. A Fazenda brasileira ainda aposta em crescimento de 2%. A ver.

Mais importante, é que haverá uma retração absolutamente recorde, de 11%, no volume de comércio global. Por isso essa crise é não só tão grande como profunda, pois paralisa um dos principais motores do crescimento, a troca de bens e serviços entre países.

Os dois mapas abaixo dão uma clara dimensão do que está acontecendo.

O primeiro mostra a demanda por importações dos países avançados e da China na média das crises dos mercados emergentes de 1995, 1998 e 2007. Quanto mais escuro o tom de vermelho, mais "quentes" estavam as importações.

Reprodução

O segundo mostra exatamente a mesma coisa, só que agora em 2009. Quanto mais escuro o azul, mais "gelada" a demanda desses países por produtos importados.

Reprodução

Ao que parece, estamos mesmo numa fria.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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