Pensata

Fernando Canzian

29/04/2009

A primeira boa notícia

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DE NOVA YORK - A melhor imagem para se descrever a economia de um país, especialmente uma das grandes como os EUA, é a de um navio transatlântico. Mesmo que decisões e ações sejam tomadas imediatamente, o bicho vai demorar um bom tempo para ser recolocado no rumo desejado.

No caso da atual crise, os motores desse transatlântico não apenas pararam, como deu-se um imenso rasgo em seu casco. Muita água entrou na sala de máquinas. E os reparos estão sendo feitos num clima de afogamento. Se países afundassem, estaríamos diante de um Titanic.

O Departamento do Comércio dos EUA acaba de informar, porém, que o principal motor da gigantesca embarcação norte-americana começa a emitir sinais de vida. O consumo das famílias no país, que responde por 70% do PIB, cresceu 2,2% no primeiro trimestre de 2009.

Se a recuperação do consumo se sustentar, essa é, individualmente, a melhor notícia desta crise.

O PIB dos EUA despencou 6,1% entre janeiro e março, e já havia caído outros 6,3% entre outubro e dezembro de 2008. A intensidade da desaceleração nesses seis meses foi a maior em 51 anos.

Mas se os dois números parecem iguais, seus componentes são completamente diferentes.

No último trimestre de 2008, tudo despencou nos EUA (consumo, investimentos, estoques). Só os gastos do governo é que ficaram no azul, subindo 7%. Ou seja, o Estado impediu que o PIB não recuasse além do tombo de 6,3%.

Já no primeiro trimestre de 2009, quase todos os componentes do PIB novamente mostraram contração. Desta vez, até os gastos do governo recuaram (-4%). Houve ainda um colapso nos investimentos do setor privado, que caíram à metade ante igual período em 2008 (subtraindo 8,8 pontos percentuais do PIB).

A diferença agora é que o consumo das famílias cresceu. Mesmo os magros 2,2% de aumento foram suficientes para que a economia não desabasse mais. Isso ocorre porque, como já dito, 70% do PIB nos EUA são gerados pelo consumo.

Ou seja, como tem um peso enorme, proporcionalmente um pequeno aumento percentual no consumo supera, em muito, uma eventual retração maior em outra área (como nos gastos do governo ou nos investimentos das empresas).

A nova pergunta de 1 milhão de dólares agora é: esse aumento do consumo é sustentável?

É muito difícil responder isso agora. Pois, mesmo que se sustente, ele poderá continuar em um patamar muito baixo, insuficiente para compensar a queda em outros componentes do PIB e tirar a economia do vermelho.

O fato de os investimentos das empresas terem caído tão fortemente não é nada bom, pois pode induzir a mais desemprego, apavorando quem está começando a sair da toca para gastar.

Como compensação, há outra boa nova. Conforme o tempo vai passando, ficará cada vez mais próximo e real o resultado do pacote de gastos de US$ 787 bilhões que o governo dos EUA está colocando na praça. A expectativa é que, além do consumo, os gastos do Estado aumentem aos poucos, até tirarem o PIB dos EUA do campo negativo.

A esperança é que isso dê uma nova dinâmica para a economia.

O grande "porém" disso tudo é que segue extremamente mal resolvida a questão central dessa crise: os bancos.

Eles continuam entupidos por trilhões de dólares em "ativos tóxicos", acumulados nos anos de farra irresponsável na concessão de crédito nos EUA. Por isso, não emprestam tanto como faziam no passado. Além disso, os norte-americanos estão endividados como nunca em suas vidas. O processo de "desendividamento" neste quadro de crédito apertado tende a ser muito longo.

Na década de 1990, o Japão ensinou ao mundo uma dolorosa lição. Sem um sistema financeiro limpo e operando no sentido de fornecer crédito a empresas e consumidores, o crescimento tende a ser extremamente baixo, quase vegetativo.

Quando não, negativo.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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