Pensata

Fernando Canzian

12/05/2009

Da orgia à ressaca

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DE NOVA YORK - É muito difícil encontrar um norte-americano que tenha apenas dois ou três cartões de crédito. Na fila de qualquer caixa de supermercado ou loja, causa um certo choque quando a pessoa à frente abre a carteira e muitas vezes revela quase uma dúzia de cartões enfileirados.

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Estátua de zumbi em ação para "enfeitar" o jardim de casa: US$ 88,95
Estátua de zumbi em ação para "enfeitar" o jardim de casa: US$ 88,95

Agora, os bancos e consumidores norte-americanos estão em guerra por conta dos cartões. De um lado, há uma pressão por aumento de tarifas e juros. De outro, uma reclamação geral por conta dos novos custos, mais um abrupto encolhimento nos limites de crédito.

Precisando fazer caixa e evitar perdas maiores, os bancos estão dizimando os créditos a pagadores duvidosos e passando a cobrar tarifas novas, como até 3,5% sobre o gasto quando a compra é feita em outro país. Não é só no Brasil que a rapaziada do setor é criativa.

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Sandália com pregos para ajustar ao sapato e "arear" grama: US$ 12,99
Sandália com pregos para ajustar ao sapato e "arear" grama: US$ 12,99

Para os usuários, isso tudo acontece em um quadro onde continuam a perder seus empregos, suas casas e após o enorme tombo sofrido na Bolsa nos últimos meses.

Até o Congresso dos EUA interveio na disputa, e deve soltar nos próximos dias novas regras para o setor.

Só nos créditos rotativos de seus cartões (quando se paga o mínimo necessário dos débitos) os americanos estão hoje pendurados em quase US$ 1 trilhão de dívidas (perto de um PIB do Brasil). E a média anual de juros está subindo, de 12% para 16%. Mas alguns bancos já cobram 18%.

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Rampa para ajudar o cachorro a subir e descer do carro: US$ 119,00
Rampa para ajudar o cachorro a subir e descer do carro: US$ 119,00

Os norte-americanos nunca deveram tanto em suas vidas, de tanto comprar coisas úteis e inúteis, como as mostradas nessas fotos. São produtos vendidos à rodo por meio de uma das mais populares revistas de consumo dos EUA, a Sky Mall, distribuída entre várias companhias aéreas. Há centenas de outras inutilidades.

Agora, depois dessa orgia de consumo que ajudou a detonar a crise, a expectativa dos 19 maiores bancos dos EUA é que as perdas relacionadas ao não-pagamento de faturas de cartões de crédito atinjam, até 2010, US$ 83 bilhões.

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Conjunto de bóias para se reunir na piscina com os amigos: US$ 39,99
Conjunto de bóias para se reunir na piscina com os amigos: US$ 39,99

O valor pode ser muito maior. A exemplo do que faziam com as dívidas imobiliárias, esses débitos são "empacotados" pelos bancos em outros títulos e vendidos por aí. Quando o consumidor dá o calote, ele reverbera em toda a cadeia.

Em bancos como Citigroup, Bank of America e JP Morgan Chase, a expectativa é que até 23% dos empréstimos via cartões de crédito acabem bichados.

Confirmadas essas previsões, será mais um baque, um pouco mais à frente, sobre a já combalida economia norte-americana e seus bancos.

*

Dezenas de vitrines de lojas há meses fechadas para alugar em Manhattan estão se convertendo em outdoors. Como os donos não conseguem alugar o imóvel, recebem algum dinheiro para que outras empresas exponham cartazes enormes de seus produtos. É um forte sinal de criatividade, mas também da crise.

É também só mais um pequeno indicativo de que parece um pouco animada demais a recuperação recente dos mercados, principalmente nos EUA.

Outro são os preços dos imóveis residenciais à venda no país (que estão na raiz da crise). Embora a velocidade de sua queda venha diminuindo, eles caíram outros 14% no primeiro trimestre deste ano. Os preços despencaram em 134 das 152 áreas pesquisadas, o que não é bom sinal.

O gráfico abaixo, enviado pelo colega da Folha Mário Kanno, da editoria de Arte, mostra como o índice Dow Jones da Bolsa de NY se comportou durante a Grande Depressão.

Não estamos falando em nada parecido com aquilo, mas é notável quando, mesmo após o colapso inicial de 1929, tenha havido quase meia dúzia de tentativas de recuperação até atingirmos o fundo do poço, pouco antes de 1933.

Vamos ter bem mais sorte desta vez. A dúvida é quanta.

Arte
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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