Fernando Canzian
Da orgia à ressaca
DE NOVA YORK - É muito difícil encontrar um norte-americano que tenha apenas dois ou três cartões de crédito. Na fila de qualquer caixa de supermercado ou loja, causa um certo choque quando a pessoa à frente abre a carteira e muitas vezes revela quase uma dúzia de cartões enfileirados.
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| Estátua de zumbi em ação para "enfeitar" o jardim de casa: US$ 88,95 |
Agora, os bancos e consumidores norte-americanos estão em guerra por conta dos cartões. De um lado, há uma pressão por aumento de tarifas e juros. De outro, uma reclamação geral por conta dos novos custos, mais um abrupto encolhimento nos limites de crédito.
Precisando fazer caixa e evitar perdas maiores, os bancos estão dizimando os créditos a pagadores duvidosos e passando a cobrar tarifas novas, como até 3,5% sobre o gasto quando a compra é feita em outro país. Não é só no Brasil que a rapaziada do setor é criativa.
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| Sandália com pregos para ajustar ao sapato e "arear" grama: US$ 12,99 |
Para os usuários, isso tudo acontece em um quadro onde continuam a perder seus empregos, suas casas e após o enorme tombo sofrido na Bolsa nos últimos meses.
Até o Congresso dos EUA interveio na disputa, e deve soltar nos próximos dias novas regras para o setor.
Só nos créditos rotativos de seus cartões (quando se paga o mínimo necessário dos débitos) os americanos estão hoje pendurados em quase US$ 1 trilhão de dívidas (perto de um PIB do Brasil). E a média anual de juros está subindo, de 12% para 16%. Mas alguns bancos já cobram 18%.
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| Rampa para ajudar o cachorro a subir e descer do carro: US$ 119,00 |
Os norte-americanos nunca deveram tanto em suas vidas, de tanto comprar coisas úteis e inúteis, como as mostradas nessas fotos. São produtos vendidos à rodo por meio de uma das mais populares revistas de consumo dos EUA, a Sky Mall, distribuída entre várias companhias aéreas. Há centenas de outras inutilidades.
Agora, depois dessa orgia de consumo que ajudou a detonar a crise, a expectativa dos 19 maiores bancos dos EUA é que as perdas relacionadas ao não-pagamento de faturas de cartões de crédito atinjam, até 2010, US$ 83 bilhões.
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| Conjunto de bóias para se reunir na piscina com os amigos: US$ 39,99 |
O valor pode ser muito maior. A exemplo do que faziam com as dívidas imobiliárias, esses débitos são "empacotados" pelos bancos em outros títulos e vendidos por aí. Quando o consumidor dá o calote, ele reverbera em toda a cadeia.
Em bancos como Citigroup, Bank of America e JP Morgan Chase, a expectativa é que até 23% dos empréstimos via cartões de crédito acabem bichados.
Confirmadas essas previsões, será mais um baque, um pouco mais à frente, sobre a já combalida economia norte-americana e seus bancos.
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Dezenas de vitrines de lojas há meses fechadas para alugar em Manhattan estão se convertendo em outdoors. Como os donos não conseguem alugar o imóvel, recebem algum dinheiro para que outras empresas exponham cartazes enormes de seus produtos. É um forte sinal de criatividade, mas também da crise.
É também só mais um pequeno indicativo de que parece um pouco animada demais a recuperação recente dos mercados, principalmente nos EUA.
Outro são os preços dos imóveis residenciais à venda no país (que estão na raiz da crise). Embora a velocidade de sua queda venha diminuindo, eles caíram outros 14% no primeiro trimestre deste ano. Os preços despencaram em 134 das 152 áreas pesquisadas, o que não é bom sinal.
O gráfico abaixo, enviado pelo colega da Folha Mário Kanno, da editoria de Arte, mostra como o índice Dow Jones da Bolsa de NY se comportou durante a Grande Depressão.
Não estamos falando em nada parecido com aquilo, mas é notável quando, mesmo após o colapso inicial de 1929, tenha havido quase meia dúzia de tentativas de recuperação até atingirmos o fundo do poço, pouco antes de 1933.
Vamos ter bem mais sorte desta vez. A dúvida é quanta.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |






