Pensata

Fernando Canzian

28/05/2009

Demasiado humanos

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DE NOVA YORK - René Descartes (1596-1650) inicia o primeiro capítulo de sua obra mais famosa, o "Discurso sobre o Método", com uma apologia cínica dirigida ao bom senso que cada um de nós julga possuir. Assim começa a obra do filósofo e matemático francês:

"Inexiste no mundo coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem."

Um novo livro publicado nos EUA, "Busted" (no sentido de quebrado ou arruinado), é uma prova contemporânea dessa "verdade" universal.

"Busted" foi escrito por um dos melhores repórteres do "The New York Times", Edmund Andrews. Jornalista de finanças e membro da equipe do jornal em Washington, Andrews especializou-se nos últimos anos no mercado imobiliário, que está na raiz da atual crise financeira global.

Lá em 2004, Andrews escreveu vários artigos sobre os riscos potenciais da política de juros extremamente baixos praticados pelo Fed (o banco central dos EUA) para o mercado imobiliário. Milhares de tomadores de crédito estavam correndo para obter financiamentos, o que fez disparar o preço dos imóveis nos EUA durante um longo período.

Totalmente ciente da dinâmica que esta onda poderia tomar, Andrews acabou, surpreendentemente (como conta em detalhes em seu livro), completamente envolvido no turbilhão posterior do estouro da "bolha imobiliária".

Quase um cinquentão e recém saído de um casamento de 21 anos, Andrews redescobriu e se apaixonou por uma antiga colega de colégio, Patty, com quem decidiu começar uma vida nova em.... uma nova casa.

Gillian Laub/New York Times
O jornalista do "Times" Edmund Andrews e sua nova mulher, Patty. Apesar de escrever diariamente sobre os riscos do mercado imobiliário nos EUA, ele acabou afundado em dívidas e pode perder sua casa
O jornalista do "Times" Edmund Andrews e sua nova mulher, Patty. Apesar de escrever diariamente sobre os riscos do mercado imobiliário nos EUA, ele acabou afundado em dívidas e pode perder sua casa

Com um salário anual de US$ 130 mil (cerca de R$ 22 mil/mês), mas em boa parte comprometido com um acordo para o sustento de seus três filhos do primeiro casamento, o especialista em mercado imobiliário do "Times" assinou um financiamento para compra de um imóvel avaliado em US$ 460 mil.

Poucos meses depois, em janeiro de 2005, Andrews descobriu que estava quebrado, com um saldo bancário de US$ 196.

Com a nova mulher sem trabalhar até então, sua situação financeira se deteriorou rapidamente. Pouco mais de um ano depois, Andrews e Patty deviam US$ 50 mil em cartões de crédito e começaram a brigar diariamente por causa de dinheiro. No livro, ele a acusa de ser "gastadora demais", embora estejam ainda juntos.

Assim como outros milhares de americanos, Andrews (depois de tomar US$ 15 mil emprestados da mãe) usou a sua casa como garantia para tomar novos créditos, aumentando rapidamente seu rombo financeiro.

"Me senti estúpido, envergonhado e com raiva. Por que eu tentava ter uma estilo de vida que pelo qual eu não podia pagar? Como pude desconsiderar o fato de que estava gastando cerca de US$ 3.000 a mais por mês em relação ao que ganhava? Como alguém que escreve sobre economia pôde acabar na cilada do crédito fácil?", pergunta-se Andrews no livro.

No final da história, o casal terminou com três financiamentos em três empresas e bancos diferentes, dois dos quais quebraram após o colapso do sistema financeiro dos EUA a partir de setembro de 2008.

Atualmente, Andrews e a mulher estão com oito meses de atraso no pagamento de suas prestações imobiliárias e sequer conseguem falar com os atendentes do JP Morgan Chase, que detém seu financiamento, tamanho o volume de casos idênticos ao do casal.

Na última tentativa, Andrews foi informado pelo banco que cada analista envolvido em negociações com mutuários inadimplentes como ele cuida de nada menos do que 500 casos. Daí, que ele teria de esperar por um contato, possivelmente informando que poderá ser despejado por falta de pagamento.

Ao que parece, a publicação do livro com as confissões nada edificantes do jornalista é sua última cartada para levantar algum capital e tentar sair do buraco em que se meteu --juntamente com milhões de americanos que deram passos maiores do que as pernas.

*

Abaixo, um mapa da situação dos pedidos de despejos nos EUA. Quando mais vermelho, maior a quantidade de ações contra mutuários.

Na média do país, 12% das residências financiadas (cerca de 4,5 milhões de casas) estão com pagamentos em atraso ou sofrendo processo de despejo.

Reprodução
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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