Fernando Canzian
Geração espontânea e bolha
DE NOVA YORK - Muito se tem falado sobre os tais "brotos verdejantes" que estariam aparecendo em vários pontos da economia norte-americana. Seriam uma sinalização de que o pior já passou.
Afinal, o recente otimismo dos mercados, até mesmo na Bolsa de Nova York (+35% desde março), seria reflexo da recuperação, certo?
No mundo antigo, era corrente a crença de que a vida surgia naturalmente da matéria inerte. Moscas nasciam da carne em putrefação, ensinavam Aristóteles e outros gregos. Até o século 17, ainda acreditava-se que ratos eram gerados de pilhas de lixo e que camundongos surgiam para a vida a partir de montes de trigo deixados pelos cantos.
Aparentemente, esse obscurantismo está de volta. Assim como a euforia dos mercados, que sobem quase consistentemente, resvalando nos níveis pré setembro de 2008, no auge da crise.
Neste mundo de otimismo, o Lehman Brothers não quebrou, 6 milhões de norte-americanos não perderam seus empregos, General Motors e Citigroup são duas rochas e as contas públicas norte-americanas e da maioria das grandes economias nunca estiveram tão saudáveis.
Infelizmente, os fatos acima geraram matéria quase inerte -- e ocorreram há pouquíssimo tempo.
Em tempos de apreensões aerodinâmicas, vale a comparação: economias podem ser tomadas por aviões. Quanto maior o número de turbinas em operação e o uso do combustível disponível, maior a sua velocidade.
Hoje, a economia norte-americana tem praticamente uma única turbina funcionando: os gastos públicos. E ela opera em potencia baixíssima. Do plano de gastos fiscais de US$ 787 bilhões do governo Barack Obama, uma parcela ínfima foi gasta até agora.
As outras turbinas ou estão apagadas ou em "reverso", agindo contra o movimento para frente da aeronave.
Por mais de uma década, a economia dos EUA cresceu mediante o funcionamento de dois poderosos motores: o aumento da oferta de crédito e dos preços dos imóveis. Os dois elementos proporcionavam uma "sensação de riqueza" cada vez maior entre os consumidores, que respondem por 70% do PIB do país.
Hoje, os preços dos imóveis não param de cair e a oferta de crédito diminui mês a mês. E os bancos perdem cada vez mais dinheiro no mercado imobiliário, com milhões de desempregados deixando de pagar financiamentos. O que só alimenta o ciclo de redução no crédito, cujo volume encolheu 7,4% em termos anualizados até abril.
É preciso ter sempre em mente que todo o dinheiro disponível no mundo são só luzinhas em telas de computadores. Digitamos senhas e olhamos saldos bancários virtuais. Se todos os clientes de seu banco fossem sacar o que acreditam ter em saldos hoje, o banco estaria quebrado à noite.
As intrincadas e exóticas operações financeiras dos últimos anos criaram uma riqueza virtual gigantesca e multiplicaram rapidamente os zeros à direita luminosos que vemos nessas telas, seja no saldo de aplicações em títulos do Tesouro, CDBs ou ações.
É essa enorme riqueza virtual que parece estar inflando novamente os mercados.
Ao que parece, voltamos à alegria de uma nova bolha.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |
