Pensata

Fernando Canzian

25/06/2009

Recuperação em xeque

Publicidade

A economia dos EUA prossegue em seu jogo de gato e rato com as estatísticas a respeito de sua recuperação ou continuidade da maior recessão desde os anos 1930.

O novo resultado do PIB do primeiro trimestre do ano mostrou que a economia do país se retraiu 5,5% em termos anualizados entre janeiro e março. Isso em cima de um tombo de 6,3% no último trimestre de 2008.

Há várias semanas fala-se no surgimentos de "brotos verdejantes" na planície econômica. De fato, os números do PIB mostraram que eles existem, e que podem estar se firmando neste exato momento.

Mas os dados mostram também que há uma mudança estrutural (ainda que passageira) mais do que suficiente para colocar em xeque as esperanças de uma recuperação a partir do segundo semestre do ano.

Enquanto muitos acreditam que isso possa ser possível, há quem aposte mais em um cenário de recessão em forma de "W". Ou seja, queda, recuperação, nova queda e só então uma recuperação mais consistente.

O comportamento da Bolsa de Nova York tem sido errático, assim como ocorreu nos primeiros meses da Grande Depressão nos anos 1930. Lá, foram ensaiadas várias recuperações, até que o fundo do poço foi efetivamente atingido quase três anos depois do início da crise. A ver.

As principais leituras do novo PIB dos EUA:

Quase todos os componentes mais "sadios" para sustentar um crescimento realmente firme vieram novamente em baixa. Os dois mais importantes (e piores) indicadores foram:

1) Investimentos não residenciais. Desabaram 37,3% no primeiro trimestre, muito mais do que a queda de 21,7% no último trimestre de 2008. Os gastos com edificações também não residenciais tiveram um tombo forte, de 43%;

2) Já os investimentos no setor de moradias caíram 39%, sobre um outro recuo de 23% entre outubro e dezembro do ano passado.

As exportações também caíram caíram: 30,6%. Mas sua contribuição negativa foi parcialmente compensada por um recuo de 36% nas importações.

Os lucros dos bancos e empresas privadas aumentaram moderadamente. Mas refletiram mais o corte de custos (demissões e menos investimentos) do que propriamente um aumento da receita.

A grande boa notícia no resultado do PIB foi que o consumo das famílias (que representa 70% do PIB nos EUA) cresceu 1,4% no primeiro trimestre depois de despencar 4,3% no último do ano passado.

Problema: consumo só se sustenta com investimentos e empregos. Os dois itens, por enquanto, não constam da lista dos tais "brotos verdejantes".

Ao contrário, são ervas daninhas que se espalham pelo campo da recuperação.

Reprodução
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

Leia as colunas anteriores

FolhaShop

Digite produto
ou marca