Pensata

Fernando Canzian

29/06/2009

Michael Jack$on e gays

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DE NOVA YORK - A história financeira de Michael Jackson, morto aos 50 na semana passada, é uma delícia.

E um retrato acabado de como os norte-americanos, remediados ou ricos, conseguiram viver "at large" nas últimas décadas. Emprestando e emprestando. Até o colapso do sistema de crédito no ano passado.

"Rei do pop" e maior vendedor de discos da história, o cantor foi, no ramo das finanças, um sujeito até convencional. Guardadas as proporções e tendo em conta que a maioria dos norte-americanos estão hoje endividados até o pescoço.

Estima-se que Jackson tenha morrido com dívidas acumuladas de US$ 500 milhões.

Seus gastos anuais giravam em torno de US$ 12,5 milhões. Cerca de US$ 7,5 milhões para despesas pessoais, como manter macacos e lhamas ou fretar jatos, e US$ 5 milhões para a manutenção do seu rancho Neverland. Em seu auge, a Terra do Nunca chegou a empregar 150 pessoas.

Jackson teria ganho cerca de US$ 700 milhões em sua carreira artística a partir dos anos 1980, com shows, direitos autorais e royalties da gravadora Sony.

Sua mais brilhante tacada no mundo dos negócios foi a compra, em 1985 e por US$ 47,5 milhões, dos direitos autorais do catálogo de mais de 200 músicas dos Beatles. Esse "ativo" teve seu valor multiplicado várias vezes ao longo dos anos, à medida em que Jackson aprofundava seu gosto por gastos estratosféricos.

No final, foram esses direitos sobre a obra dos Beatles que sustentaram as extravagâncias do cantor. Em parceria com a Sony, Jackson detinha a metade deles. E seu naco valia cerca de US$ 500 milhões. Jackson, porém, já havia dado esses direitos como garantia para levantar outros US$ 300 milhões emprestados do banco inglês Barclays a fim de financiar seus gastos.

O mesmo fizeram milhões de americanos hoje falidos após o estouro da "bolha imobiliária". Eles se endividaram colocando suas casas como garantias para levantar dólares para viagens ou para trocar de carro.

Jackson se endividou e gastou tanto que, em 2006, renegociou suas dívidas dando à Sony novos direitos sobre a metade da sua metade (ou seja, ficou com 25%) dos direitos sobre as músicas dos Beatles. Não foi o suficiente.

Dois anos depois, o cantor quase perdeu Neverland por faltar no pagamento de US$ 24,5 milhões de parcela da dívida que havia tomado para comprar a propriedade (claro que o rancho era financiado).

No final, assim como fez com a Sony, Jackson transferiu metade de Neverland para a Colony Capital, uma empresa da área de investimentos imobiliários. Assim vinha se mantendo à tona, mas cada vez mais perto do naufrágio.

A sequência de shows que planejava fazer em Londres neste ano visava, entre outras coisas, reparar parte da enorme bagunça em suas finanças. Jackson foi finalmente obrigado a trabalhar um pouco quando seu crédito secou.

Não deu tempo.

*

Nova York comemorou neste domingo o aniversário de 40 anos do início do movimento em defesa dos direitos civis dos gays nos EUA, marcado pela invasão pela polícia e por um quebra-quebra no bar gay Stonewall, em Greenwich Village, em 28 de junho de 1969.

Fernando Canzian/Folha Imagem
Bombeiros gays do Departamento de Incêndio de NY desfilam na Parada Gay; outro bloco contou ainda com policiais também gays
Bombeiros gays do Departamento de Incêndio de NY desfilam na Parada Gay; outro bloco contou ainda com policiais também gays

Passados 40 anos, apenas 6 dos 50 Estados norte-americanos permitem o casamento entre homossexuais. Além de ser uma questão exclusivamente privada (onde terceiros não deveriam se meter), ela continua trazendo uma série de embaraços e disputas legais sobre o patrimônio e eventualmente filhos de pessoas que se amam e que decidiram viver juntas.

Nas Forças Armadas dos EUA também permanece em relação aos gays a política cínica criada pelo também cínico ex-presidente democrata Bill Clinton: o "Don't ask, don't tell" (Não pergunte, não conte sobre preferências sexuais).

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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