Pensata

Fernando Canzian

27/07/2009

Preto, branco, cinza

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NOVA YORK - Diz o psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) sobre o processo de individualização:

"Só podemos dizer que os indivíduos são iguais quando eles são amplamente inconscientes. Isto é, inconscientes de suas diferenças reais. Quanto mais uma pessoa é inconsciente, mais ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico.

Mas, quanto mais ela toma consciência de sua individualidade, mais acentuada se torna sua diferença em relação a outros indivíduos. E menos ela corresponderá à expectativa comum. Além disso, suas reações se tornam muito pouco previsíveis".

Em uma entrevista coletiva na semana passada, o presidente negro dos EUA, Barack Obama, foi questionado sobre um curioso caso de aparente racismo cometido pela polícia de Cambridge, em Massachusetts.

Enquanto encontrava dificuldades com um molho de chaves para abrir a porta de sua própria casa, o professor negro da Universidade de Harvard Henry Gates foi avistado por vizinhos. Alarmados, acharam que se tratava de uma tentativa de furto. Chamaram a polícia.

Aos berros e dizendo que tentava entrar em sua própria residência, Gates foi algemado e encaminhado a um distrito policial. Logo depois, estava liberado. Detalhe: Gates é amigo de anos de Obama.

Questionado sobre o incidente, Obama disparou, imprevisível: "A polícia de Cambridge agiu de forma estúpida".

Dois dias depois da cena em Cambridge, o primeiro presidente negro dos EUA se retratou.

Disse que poderia ter "calibrado de modo diferente as palavras" com as quais se referiu ao caso. Afirmou ter telefonado pessoalmente ao policial que atuou contra Gates, James Crowley, e que convidou ambos para tomar uma cerveja na Casa Branca.

Diante da maior crise financeira desde a década de 1930 e com uma agenda ambiciosa cujo custo financeiro e político dependerá largamente da elite branca norte-americana e de seus impostos, é compreensível que Obama não queira criar arestas e acentuar conflitos raciais.

Mas Obama é negro e sabe exatamente o que é ser minoria. Em um país onde, por exemplo, dois terços dos 140 mil condenados à prisão perpétua são negros ou latinos. E onde há quatro décadas havia banheiros e assentos em ônibus ou trens separados para "gente de cor" e brancos.

Obama é negro e tem só 47 anos. É o homem mais poderoso do mundo. É produto de uma minoria vista como violenta, pobre e perigosa em seu próprio país.

É fascinante pensar no que se passou nas 48 horas entre a "individualidade imprevisível" de Obama e seu recuo, agora presidencial.

*

Há 15 anos, em um hotel na Holanda, pedi a uma mulher negra que ajeitava um cobertor sobre uma cama no quarto ao lado para que, por favor, não se esquecesse de retirar o lixo de meu quarto quando fosse arrumá-lo.

Sandra não era funcionária do hotel. Era hóspede.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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