Pensata

Fernando Canzian

30/07/2009

Feitiço trilionário

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A conta da tentativa de saída da atual crise econômica global vai assumindo proporções gigantescas. E nada garante ainda que os trilhões despejados por essas medidas sejam suficientes.

Ou que não se tornem exatamente parte de um problema ainda maior.

O FMI acaba de divulgar um novo levantamento sobre o endividamento público dos países que integram o G20 (as 20 maiores economias do mundo). O quadro é assustador, principalmente entre os países ricos.

É o que os dois gráficos nessa página mostram. Tanto o déficit fiscal quanto o endividamento público bruto dos países mais ricos (linhas verdes) estão acima da média do G20 e são ainda maiores na comparação com os emergentes.

Reprodução

O endividamento de um país é sempre comparado como proporção de seu PIB. Isso porque é o tamanho e a evolução do PIB que geram a receita tributária necessária para pagar dívidas.

Quanto maior a dívida em relação ao PIB, menos solvente vai se tornando um país. E, para continuar financiando esse endividamento cada vez maior, os investidores tenderão a pedir juros também cada vez maiores ao governo desse país.

Era o que acontecia no Brasil há alguns anos, quando a dívida pública era altíssima. O país tinha que manter os juros na lua para atrair investidores dispostos a correr o risco de bancar um governo rumo à falência.

Isso mudou no Brasil graças à política de superávits primários, que são, grosso modo, uma economia orçamentária que o governo faz para pagar sua dívida. E, assim, tentar reduzi-la.

O que o novo trabalho do FMI mostra é que nos países ricos, onde a crise é maior, o endividamento público está explodindo como resultado das políticas de gastos trilionários para tentar levantar suas economias. Coisas como o pacote de US$ 787 bilhões nos EUA.

Antes da crise, o endividamento público norte-americano equivalia a 63% do PIB. Hoje, é de 89%. Para 2014, é projetado em 112% do PIB. Quase US$ 16 trilhões.

Do mesmo modo que o Brasil foi obrigado a fazer superávits primários para diminuir sua dívida, o FMI projeta que os EUA terão de fazer uma economia anual equivalente a 4,3% de seu PIB (mais ou menos o que o Brasil vinha fazendo até 2008) para trazer o endividamento para a casa de 60% do PIB (nível considerado sustentável).

Detalhe: isso durante os próximos 20 anos.

O quadro não é muito melhor entre os países europeus. E absolutamente pior no Japão, onde o endividamento já equivale a 217% do PIB. O superávit primário necessário lá será de quase 10%.

Como comparação, o endividamento médio do G20 emergente está em 38,8% do PIB. No Brasil, onde há uma das dívidas públicas mais altas entre eles, deve fechar o ano em 70%, segundo projeção do FMI.

Para manter uma trajetória sustentável, o Brasil terá de continuar reservando o equivalente a 2% de seu PIB para pagar a dívida.

O maior risco daqui em diante é o feitiço dos gastos trilionários se voltar contra o feiticeiro.

Com a explosão do endividamento, investidores poderão começar a exigir juros maiores para financiar a rolagem dos débitos. Isso pode virar um pesadelo ainda maior caso existam no horizonte pressões inflacionárias, o que obrigaria os bancos centrais a subir ainda mais os juros.

Juro maior significa atividade econômica menor.

E era para combater justamente isso que os países ricos deixaram suas dívidas explodir.

Reprodução

Charge da "The Economist" mostra funcionários do BC dos EUA dizendo
verem uma luz no fim do túnel; é o fogo saindo do nariz do dragão da inflação

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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