Pensata

Fernando Canzian

03/08/2009

No olho da rua

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NOVA YORK - Há 20 anos, no Reino Unido, era permitido na prática invadir imóveis desocupados.

Em Londres, ingleses, escoceses, irlandeses ou estrangeiros na faixa dos 20 anos deixavam a casa dos pais ou seus países de origem e procuravam viver nos chamados "squats".

Havia de tudo. Apartamentos enormes e confortáveis ou espeluncas. Os mais enfronhados no esquema moravam em imóveis de três ou mais quartos. Sala com lareira e, com sorte, linha telefônica. Acredite se quiser.

Vivi nessa vida por alguns meses, em um período de vagabundagem na Europa.

Algumas vezes, algo falhava. Como a energia elétrica. No inverno, perecíveis eram colocados do lado de fora da janela. Mas o banho era quente, o aquecimento interno funcionava e o fogão também, pois eram a gás. Nessas circunstâncias, a vida a luz de velas é ótima.

Jovens, músicos, desocupados e estudantes passavam noites cerrando cadeados e retirando obstáculos de madeira de bons apartamentos vazios para poder morar dentro deles. Os imóveis pertenciam ao Council de Londres, a autoridade local que administrava o assunto.

A regra era clara: os "squaters" se conheciam e se ajudavam. Havia algumas distorções. Como um francês, Pascal, que vendia sua "expertise" para religar clandestinamente a energia elétrica cortada. Com o tempo, tornou-se um pária.

Os "squaters" indicavam apartamentos vazios e davam abrigo a quem estivesse precisando de um local para morar. Um troço meio organizado.

Se a polícia detectasse um arrombamento em curso, fim de caso. Distrito, detenção de passaportes, o diabo.

Mas, se na manhã seguinte à invasão você tivesse uma chave correspondente a uma nova fechadura, o imóvel era seu. Mesmo que temporariamente.

Essa era a regra.

A ordem de despejo viria. Mas poderia levar entre seis e muitos mais meses, dependendo da organização estatal e da burocracia por trás do processo. Seriam três cartas das autoridades até o fim.

A liberal e ex-premiê britânica Margareth Tatcher (1979-1990) acabou com a mamata. Na Londres de hoje, alguns dos imóveis antes ocupados por "squaters" são listados por preços elevados. Os bairros, na época um pouco deteriorados, são habitados agora por jovens profissionais em ascensão.

É significativo que, mais de 20 anos depois e nos EUA (país mais rico do mundo) milhares de norte-americanos são hoje obrigados a viver nas chamadas "tent cities" quando há milhões de residências vazias em todo o país.

As "tent cities" são comunidades formadas por barracas de camping ou trailers e ocupadas por gente na pior. A maioria perdeu o emprego e a casa por falta de pagamento de prestações imobiliárias.

Só na primeira metade de 2009, 1,5 milhão de residências nos EUA receberam notificações de despejo. A maioria delas foi enviada por bancos que receberam ajudas bilionárias dos contribuintes (via governo) nesta crise.

Agora, esses mesmos contribuintes estão no olho da rua. Já os bancos, voltam a lucrar e a pagar bônus.

É essa a nova regra.

*

Abaixo, link da BBC sobre as "tent cities" nos EUA e o mapa dos despejos nos EUA:

http://www.youtube.com/watch?v=CnnOOo6tRs8

Reprodução
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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Comentários dos leitores
Polycarpo Quaresma (26) 27/11/2009 21h01
Polycarpo Quaresma (26) 27/11/2009 21h01
Quem vende commodities não deve construir prédios com mais de 20 andares. Patético sem opinião
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Langstein Almeida (5) 27/11/2009 20h08
Langstein Almeida (5) 27/11/2009 20h08
O governo Obama passou ao poder dos bancos mais de dois trilhões de dólares, arrecadados com venda dos títulos da dívida pública americana, que já descambou de 14 trilhões de dólares. Só a China é credora de mais de um trihão de dólares. O Brasil deve ser credor de mais de 200 bilhões de dólares. O maior devedor do mundo são os Estados Unidos.
Um credor só está realmente seguro quando seu devedor dispõe de renda anual suficiente para quitar a dívida. Se os EU tivessem superávit primário, isto é, maior arrecadação do que despesa, no valor de um trilhão por ano, passariam 14 anos para pagar a seus credores. Isto, sem falar nos juros! Em vez de superávit, o Império terá este ano um déficit fiscal de mais de um trilhão e meio.
Em respeito à ciência financeira, esses credores nunca mais receberiam seus créditos. Em respeito ao arcenal bélico do devedor, todos os credores estão tranquilos... Seria o chefão do morro devendo a todo morador, mas todos tranquilos e muito confiantes no poder de fogo do valentão!
O perigo é o chefão dizer que não pode pagar agora e que todos esperem mais uns 50 anos. Mesmo com muito dinheiro para receber, quem iria enchocalhar a onça pintada?!
O Lula deveria criar o banco Unasul e nele todos os países latinos depositariam suas reservas em moeda forte.
Os credores dos EU não devem esquecer que esse grande devedor está sustentando várias guerras: no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão e mais de 900 bases militares, e de quebra 7 só na Colômbia.
sem opinião
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Eduardo Giorgini (431) 27/11/2009 20h04
Eduardo Giorgini (431) 27/11/2009 20h04
Caros leitores, digam nomes de empresas de Dubai sem ser ligado ao petróleo.
Obviamente é fácil concluir a podridão de tudo isso.
País sem empresas de tecnologia e educação de qualidade, é país "oco".Sobe e desse rápido.
[]s
Eduardo.
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