Fernando Canzian
O carteiro Jimmy e Bukowski
NOVA YORK - O carteiro James Betancourt, 50, trabalha há 25 anos no Upper East Side de Manhattan. É uma das áreas de maior tráfego postal nos EUA.
Por ofício, Jimmy sabe quantos são e os nomes dos que moram em cada prédio onde deixa a correspondência todos os dias. Ele conhece mapa e horários das caixas de coleta.
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| O carteiro James Betancourt, que acumula dois empregos e que trabalha em uma das áreas de maior tráfego postal nos EUA |
Segundo Jimmy, as mudanças trazidas pela atual recessão são grandes. Entre outras coisas, diz que edifícios construídos há meses têm pouquíssimos novos moradores. Muitos residentes também estão indo para imóveis menores.
Mas as principais novidades detectadas pelo carteiro estão no cerne da estatal que o emprega.
Considerado uma "instituição" nos EUA, o United States Postal Service (USPS) ruma neste ano para o maior rombo de sua história. Estimados US$ 7 bilhões.
Nas supermovimentadas esquinas das Terceira Avenida e Lexington com a rua 86, em Manhattan, havia duas caixas de correio azuis há poucos meses.
Ficou só a primeira. Nela, o recolhimento da correspondência, antes feito três vezes ao dia para agilizar a entrega, passou a uma única vez.
O correio dos EUA considera pela primeira vez abrir as agências só cinco vezes por semana para cortar custos. De 803 mil empregados em 1999, quer baixar a 550 mil.
| arquivos JIMMY |
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| Usuário deposita cartas em caixa na esquina da 3ª Avenida com a rua 86, em Nova York, uma das mais usadas no país |
Os temporários vem sendo demitidos. Contratados como Jimmy tiveram as horas extras cortadas. Ele mesmo teve de arrumar um segundo emprego para recuperar a renda. Hoje, é carteiro-porteiro. "É duro", diz.
O correio dos EUA tem o monopólio da distribuição de correspondências, chamadas "first class". E de material de propaganda não solicitado de empresas, o "junk mail".
Em compensação, tem a obrigação de atender em média mais 1,2 milhão de novos endereços todos os anos por meio de suas 32,7 mil agências.
Pela primeira vez neste ano, a entrega de correspondências "first class" deve cair, diminuindo a receita total da estatal em US$ 617 milhões, para US$ 69 bilhões.
Hoje, cerca de 95% da receita do US Postal Service é gerada em serviços para empresas, que estão com negócios em baixa.
O correio nos EUA sofre duplamente: com a recessão e com a modernização das comunicações.
Enquanto o e-mail suplanta a correspondência, centenas de empresas de telefonia, TVs a cabo e cartões de crédito fazem compulsoriamente com que usuários paguem contas online.
Lamber selos e enviar cheques ou cartas vai ficando no passado.
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| Arquivo Bukowski |
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| Charles Bukowski com uma de suas amigas em uma festinha em sua casa, em Los Angeles |
Um dos livros mais engraçados do mundo é a autobiografia de um ex-carteiro do correio dos EUA.
"Post Office" (1971, traduzido no Brasil como "Cartas na Rua") foi o primeiro livro de enorme sucesso do poeta, bêbado, mulherengo e lúcido Charles Bukowski, morto em 1994.
Quando ainda trabalhava no correio, Bukowski (que já publicara poemas e contos em revistas do submundo) teve a oferta da editora Black Sparrow Press para ganhar uma módica renda mensal só para escrever.
"Post Office", de quase 200 páginas, saiu de sua máquina em um mês.
Questionado sobre como pôde escrever o livro em tão pouco tempo, Bukowski, que sempre sonhara em ser só escritor, disse: "Out of fear" (por medo; de voltar aos correios).
Jimmy acaba de ganhar o livro.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |




