Fernando Canzian
Formato da crise:?
NOVA YORK - No final de semana, em Londres, os ministros da Fazenda do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo, incluindo Brasil) concordaram em manter os fluxos de ajuda estatal em seus países.
Cerca de US$ 2,5 trilhões ainda devem fluir dos cofres públicos para o mercado de crédito, a empresas e a programas de seguro-desemprego, entre outros.
O valor equivale ao que já teria sido empregado. Ou seja, o mundo poderá gastar até US$ 5 trilhões em estímulos fiscais para sair da crise.
Embora esses gastos nos EUA e em outras economias avançadas joguem o endividamento para o maior patamar do pós Segunda Guerra, são eles que sustentam a atual recuperação.
Recuperação, aliás, que segue frágil. Longe de estar apoiada em um real aumento da produção, do emprego, da renda e dos investimentos. Coisas que, em última análise, sustentam o crescimento duradouro.
Nos EUA, o desemprego bateu 9,7% (25% entre os jovens). Só há saldo positivo entre admissões/demissões em áreas como saúde e educação, dependentes de verbas públicas.
Nos Estados, obrigados a manter um rigor fiscal maior do que o do governo federal (como no Brasil), vários governadores fecham repartições públicas uma vez por semana para economizar.
As histórias tristes já não cabem nos jornais.
No mercado financeiro, outro clima.
A forte e recente recuperação dos preços das ações nos EUA, epicentro da crise, se apoia principalmente (além dos gastos estatais) em uma expectativa de lucros entre as empresas. Isso ocorrerá porque elas cortaram custos e empregos.
Não há mais negócios. Há menos. Mas os cortes foram profundos o suficiente para gerar lucros. Apesar da queda na produção e nas vendas.
De forma surpreendentemente lúcida e depois de tanta esbórnia, um relatório confidencial distribuído pelo IIF (Instituto de Finanças Internacionais) a seus 375 membros, a maioria grandes bancos, afirma agora que os mercados de ações globais estão à beira de uma nova "correção".
Para baixo.
Para os banqueiros, a relação entre o preço e o lucro (P/L) das ações já está muito acima da média dos últimos cinco anos --período de maior crescimento contínuo e conjunto da economia global em três décadas.
Nos 113 anos de história do índice Dow Jones da Bolsa de Nova York, em apenas seis ocasiões a recuperação foi tão forte e rápida quanto a atual.
Hoje, falamos em uma Grande Recessão, a pior crise desde os anos 1930.
As apreensões sobre a possibilidade de uma "correção" estão baseadas também no fato de os bancos continuarem reduzindo o volume de empréstimos a consumidores e bancos --como fazem desde o ano passado.
Menos financiamentos significam menos vendas, produção e atividade. Isso deprime o lucro e, consequentemente, o ganho dos acionistas.
Alguns investidores já estariam caindo fora. Em agosto, diretores de companhias com ações na Bolsa de Nova York venderam 31 vezes mais papéis do que compraram. A relação de longo prazo para este mesmo indicador é de 7 para 1.
Letras vêm sendo usadas para especular sobre o formato da atual recuperação: em V, U, W ou WW?
Ainda está mais para um grande ponto de interrogação.
| Reprodução | ||
![]() |
![]() |
Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |

