Fernando Canzian
Conversa de surdos?
PITTSBURGH - Nestas quinta e sexta-feiras em Pittsburgh, nos EUA, os líderes da economias que representam 85% do PIB mundial, reunidos no G20, tentarão chegar a acordos para evitar novas crises como a atual. E tentar corrigir desequilíbrios globais.
De um lado, os EUA gostariam muito de resolver os desequilíbrios em suas contas externas, empurrando mais de suas exportações para o colo dos países emergentes ou de economias avançadas superavitárias, como Japão e Alemanha.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
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| Polícia montada de Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia (EUA) patrulha as ruas no primeiro dia da reunião do G20 |
Já a Alemanha quer se concentrar na regulamentação do sistema financeiro e nos tetos para bônus de executivos de bancos. Assim como a França. O assunto interessa também aos EUA, mas está longe de formar um consenso internamente. Especialmente depois que os bancos voltaram a ganhar musculatura nos últimos meses, aumentando seu poder de lobby.
No topo da agenda brasileira, transformar o G20 em órgão permanente de discussões internacionais, em detrimento do G7 (que só reúne países ricos).
Essa é a terceira reunião do G20 desde o estouro da crise em setembro do ano passado. Aos poucos, ele se transformou de fato no fórum para esse tipo de discussões.
Nesta semana, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anunciou que despachará um de seus ministros para a Coreia no ano que vem (quando ela presidirá o G20) para que ajude a consolidar o grupo como bloco permanente de discussões.
Na agenda brasileira, o outro grande assunto é tentar aumentar o peso dos países emergentes no FMI. Os emergentes querem que a divisão de forças no Fundo fique no meio a meio entre avançados e em desenvolvimento. Os países riscos teriam de abrir mão de 7 pontos percentuais de sua participação (e a conta seria paga mais diretamente pelos europeus).
Os EUA apoiam a ideia pois ela é fundamental para que os norte-americanos recebam o apoio dos emergentes para corrigir os desequilíbrios que quase levaram seu país à ruína no ano passado (a saber, alto endividamento privado, e agora público, e baixíssima taxa de poupança)
A grande e importante incógnita é a posição da China. É dela que depende principalmente a correção dos desequilíbrios globais. Além de ser o país que mais cresce no mundo há anos, esse crescimento é baseado em exportações (principalmente para os EUA).
Mas essas vendas externas da China são alavancadas por mão-de-obra barata e por um câmbio artificialmente manipulado, que deixa as bugigangas chinesas com preços muito baixos no exterior.
| Fernando Canzian/Folha Imagem |
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| Carros de polícia e blindados militares são usados para proteger os chefes de Estado na reunião do G20, em Pittsburgh, na Pensilvânia |
Mas o grande risco de fundo do G20 de Pittsburgh decorre do fato de muitos países estarem voltando a crescer. Isso dilui tanto o senso de urgência de medidas que poderiam ser tomadas quanto a sua profundidade.
Para completar, na semana passada os EUA tomaram uma medida unilateral contra a China ao colocar empecilhos para a venda de pneus chineses no mercado norte-americano. Agora, os americanos começam a se voltar contra a indústria de papel chinesa.
Com a recuperação ainda tênue, uma nova onda protecionista entre os países pode ser um tiro no pé.
Do lado de fora da reunião, o cenário promete.
No fim da tarde desta quinta, um grupo de pessoas vestindo preto, com o rosto coberto e autodenominado "Os anarquistas" entrou em confronto com a polícia de Pittsburgh no primeiro grande protesto contra este G20.
Eles faziam parte de uma multidão de cerca de 500 pessoas que protestavam contra o encontro e atiraram latas de lixo e pedras nos policiais. O revide veio com bombas de gás lacrimogêneo e gás pimenta. Do lados dos policiais, cujo aparato custa US$ 19 milhões, pelo menos uma viatura teve os vidros quebrados.
O último grande protesto do tipo nos EUA ocorreu em Seattle, em 1999, contra a OMC (Organização Mundial do Comércio). Resultou em 600 prisões e US$ 3 milhões em prejuízos.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |


