Pensata

Fernando Canzian

24/09/2009

Conversa de surdos?

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PITTSBURGH - Nestas quinta e sexta-feiras em Pittsburgh, nos EUA, os líderes da economias que representam 85% do PIB mundial, reunidos no G20, tentarão chegar a acordos para evitar novas crises como a atual. E tentar corrigir desequilíbrios globais.

De um lado, os EUA gostariam muito de resolver os desequilíbrios em suas contas externas, empurrando mais de suas exportações para o colo dos países emergentes ou de economias avançadas superavitárias, como Japão e Alemanha.

Fernando Canzian/Folha Imagem
Polícia montada de Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia (EUA) patrulha as ruas no primeiro dia da reunião do G20
Polícia montada de Pittsburgh, no Estado da Pensilvânia (EUA) patrulha as ruas no primeiro dia da reunião do G20

Já a Alemanha quer se concentrar na regulamentação do sistema financeiro e nos tetos para bônus de executivos de bancos. Assim como a França. O assunto interessa também aos EUA, mas está longe de formar um consenso internamente. Especialmente depois que os bancos voltaram a ganhar musculatura nos últimos meses, aumentando seu poder de lobby.

No topo da agenda brasileira, transformar o G20 em órgão permanente de discussões internacionais, em detrimento do G7 (que só reúne países ricos).

Essa é a terceira reunião do G20 desde o estouro da crise em setembro do ano passado. Aos poucos, ele se transformou de fato no fórum para esse tipo de discussões.

Nesta semana, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, anunciou que despachará um de seus ministros para a Coreia no ano que vem (quando ela presidirá o G20) para que ajude a consolidar o grupo como bloco permanente de discussões.

Na agenda brasileira, o outro grande assunto é tentar aumentar o peso dos países emergentes no FMI. Os emergentes querem que a divisão de forças no Fundo fique no meio a meio entre avançados e em desenvolvimento. Os países riscos teriam de abrir mão de 7 pontos percentuais de sua participação (e a conta seria paga mais diretamente pelos europeus).

Os EUA apoiam a ideia pois ela é fundamental para que os norte-americanos recebam o apoio dos emergentes para corrigir os desequilíbrios que quase levaram seu país à ruína no ano passado (a saber, alto endividamento privado, e agora público, e baixíssima taxa de poupança)

A grande e importante incógnita é a posição da China. É dela que depende principalmente a correção dos desequilíbrios globais. Além de ser o país que mais cresce no mundo há anos, esse crescimento é baseado em exportações (principalmente para os EUA).

Mas essas vendas externas da China são alavancadas por mão-de-obra barata e por um câmbio artificialmente manipulado, que deixa as bugigangas chinesas com preços muito baixos no exterior.

Fernando Canzian/Folha Imagem
Carros de polícia e blindados militares são usados para proteger os chefes de Estado na reunião do G20, em Pittsburgh, na Pensilvânia
Carros de polícia e blindados militares são usados para proteger os chefes de Estado na reunião do G20, em Pittsburgh, na Pensilvânia

Mas o grande risco de fundo do G20 de Pittsburgh decorre do fato de muitos países estarem voltando a crescer. Isso dilui tanto o senso de urgência de medidas que poderiam ser tomadas quanto a sua profundidade.

Para completar, na semana passada os EUA tomaram uma medida unilateral contra a China ao colocar empecilhos para a venda de pneus chineses no mercado norte-americano. Agora, os americanos começam a se voltar contra a indústria de papel chinesa.

Com a recuperação ainda tênue, uma nova onda protecionista entre os países pode ser um tiro no pé.

Do lado de fora da reunião, o cenário promete.

No fim da tarde desta quinta, um grupo de pessoas vestindo preto, com o rosto coberto e autodenominado "Os anarquistas" entrou em confronto com a polícia de Pittsburgh no primeiro grande protesto contra este G20.

Eles faziam parte de uma multidão de cerca de 500 pessoas que protestavam contra o encontro e atiraram latas de lixo e pedras nos policiais. O revide veio com bombas de gás lacrimogêneo e gás pimenta. Do lados dos policiais, cujo aparato custa US$ 19 milhões, pelo menos uma viatura teve os vidros quebrados.

O último grande protesto do tipo nos EUA ocorreu em Seattle, em 1999, contra a OMC (Organização Mundial do Comércio). Resultou em 600 prisões e US$ 3 milhões em prejuízos.

Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.

E-mail: fcanzian@folhasp.com.br

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