Fernando Canzian
Inveja dos turcos
ISTAMBUL - Há 20 anos não pisava em Istambul, maior cidade da Turquia.
Na última vez, passei vários dias na cidade, assim como ao redor do país e em suas maravilhosas praias. A Turquia era e ainda é barata para os estrangeiros, especialmente para quem chegava ao país com libras inglesas no bolso. E parecia um país atrasado.
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| Uma das várias linhas de bondes fechados que cortam a maior cidade da Turquia; Istambul tem 13 milhões de habitantes |
Na memória, Istambul era uma cidade empoeirada, suja e confusa. Com tráfego barulhento, pouco transporte público e toda desorganizada.
Nessas duas décadas, ao contrário do que vimos nas grandes metrópoles brasileiras, Istambul se transformou completamente. Está linda e eficiente, com um sistema de transporte público organizado e com um tráfego veicular que flui incomparavelmente melhor do que em cidades como São Paulo, Rio ou Recife.
Acima de tudo, é uma cidade limpa, policiada e segura.
É difícil entender a razão pela qual os outros conseguem, e nós, brasileiros, não.
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| Na principal praça da cidade, onde fica o Mosque Azul, a Santa Sofia e o Topikap, o ambiente é limpo, bem cuidado e seguro |
A Turquia é um país muito parecido com o Brasil em termos econômicos. Seu PIB é um pouco menor, mas, do ponto de vista macroeconômico e de histórico de crises, o país não é muito diferente.
Só no início desta década a economia turca se estabilizou após viver fortes crises em 1994, 1999 e 2001. Em 2005, o governo cortou seis zeros da lira turca, que agora se chama nova lira turca. Alguma semelhança?
Aliás, em termos financeiros a Turquia está bem pior do que o Brasil. Ainda deve cerca de US$ 8 bilhões ao FMI e seu PIB sofreu contração de 14% no primeiro trimestre do ano; e de 7% no segundo. A crise pegou o país de frente, provocando uma expressiva alta em seu endividamento público.
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| Homens se lavam em torneiras à entrada de mesquita antes de se dirigirem para as preces; 99% no país são muçulmanos |
Apesar dos pesares, do ponto de vista da sua maior cidade, parece um lugar bem mais agradável para se viver do que em várias metrópoles de nosso orgulhoso Brasil de Lula, do pré-sal e credor do FMI.
Istambul também não se diferencia muito de nossas grandes cidades. Tem 13 milhões de habitantes. Mas o que se vê é uma política pública voltada para o espaço público (o que deveria ser óbvio, mas que não é no caso brasileiro).
Um exemplo: há 20 anos, a principal ponte da cidade tinha um "andar inferior" que abrigava bazares e lojas sujas e caóticas. Hoje, toda a extensão está ocupada por restaurantes à beira do Bósforo. Outro: antigas muralhas da cidade, antes cercadas de pontos de ônibus informais, foram transformadas em museus a céu aberto.
Na praça mais turística, onde ficam o Mosque Azul, a igreja Santa Sofia e o palácio Topikap, os jardins parecem ter sido cuidados por uma manicure. No equivalente à Praça da Sé paulistana ou à região das barcas no centro do Rio, a cidade é limpa, coalhada de cafés e restaurantes ao ar livre. E cheia de policiais.
Pode-se argumentar que a cidade é privilegiada por sua geografia à beira mar e pela cultura islâmica que ergueu dezenas de mesquitas e minaretes no horizonte. Mas o que dizer do Rio, Salvador ou Recife?
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| Área antes deteriorada debaixo da principal ponte de Istambul foi transformada em corredor de restaurantes à beira-mar |
Nosso problema, como sempre, parece ser a incompetência e a falta de ideias de nossos governantes.
No mínimo, eles poderiam se interessar e copiar os outros.
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Istambul está sediando nesses dias a reunião anual do FMI. Por enquanto, a informação mais relevante é que o sistema bancário mundial sequer chegou à metade do capital que precisa levantar para cobrir perdas passadas e futuras (que virão com calotes em financiamentos provocados pela recessão e desemprego).
Até aqui, os bancos conseguiram US$ 1,3 trilhão em dinheiro novo (boa parte obtido a partir de garantias estatais a investidores que compraram papéis dos bancos). Segundo o FMI, eles vão precisar de mais US$ 1,5 trilhão.
É coisa para mais de um PIB do Brasil.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |




