Fernando Canzian
Travessuras e gostosuras
NOVA YORK - Há um ano, centenas de fantasias na famosa "Halloween Parade" em Nova York mostravam "banqueiros" com dólares falsos estufando bolsos ou caindo de guarda-chuvas dourados. Outras traziam os mesmos "executivos" com sacolas brancas com um grande $ preto iguais às carregadas pelos Irmãos Metralha.
Foi uma bem humorada e aguda manifestação da indignação popular a respeito das irresponsabilidades de Wall Street, que levaram o mundo à maior crise financeira desde os anos 1930.
Na mesma parada deste ano, no final de semana, os banqueiros sumiram. Para a sorte deles, parecem ter caído no esquecimento entre o imaginário popular.
Mas a festa em Wall Street segue quente.
Bancos como Goldman Sachs, JP Morgan Chase e Morgan Stanley não existiriam mais não fosse a injeção de bilhões de dólares feita pelo Tesouro dos EUA no final de 2008. Eles estavam literalmente quebrados, e só sobreviveram porque os contribuintes colocaram dinheiro neles.
Agora, esses mesmos bancos reservam bilhões de dólares para pagar bônus a seus executivos. Entre os cinco maiores nos EUA, o valor guardado para este fim no primeiro semestre equivale a mais de US$ 10 bilhões cada.
| Fernando Canzian/Folha Imagem | ||
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| Pessoas fantasiadas em Nova York se dirigem para a tradicinal Parada de Halloween no fim de semana |
Os lucros também deram um salto entre janeiro e setembro. Mas eles ainda dependem largamente do dinheiro público. O Fed (o BC dos EUA) empresta dinheiro a custo quase zero para os bancos, que repassam os valores cobrando juros muito maiores e outras tarifas de empresas e consumidores.
A "mão invisível" do Estado americano nunca esteve tão grande (e visível). No mercado de securitização de dívidas imobiliárias (onde bancos "reembalam" créditos a receber e os vendem a terceiros a fim de aumentar o volume de financiamentos) cerca de 99% das operações são hoje financiadas com o dinheiro barato do Fed.
O Fed e o Tesouro também já colocaram US$ 1,25 trilhão no mercado para sustentar e garantir a emissão de títulos de empresas e bancos que, de outra maneira, dificilmente conseguiriam vender esse papelório para se financiar.
Ainda é cedo para sabermos quanto desse dinheiro estatal vai ser definitivamente perdido.
Em muitos casos, o governo dos EUA receberá os valores de volta, com correção e juros.
Em outros, ele vai evaporar para sempre. Por exemplo, na concordata (anunciada nesta semana) do centenário CIT Group, um gigantesco financiador de pequenas e médias empresas no país.
Neste caso, os contribuintes devem perder cerca de US$ 2,3 bilhões. A expectativa é de que haja prejuízos pesados também com as intervenções na General Motors, Chrysler e AIG, a maior seguradora do mundo.
Com o desemprego perto de 10% e a situação econômica mais assustadora do que muitas das fantasias do Halloween, nem os bônus a banqueiros ou tungas bilionárias parecem mobilizar mais os indignados.
Seja no Congresso, onde vai mal a tentativa de controlar a banca, ou pelas ruas na maior festa popular norte-americana.
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Fernando Canzian, 42, é repórter especial da Folha. Foi secretário de Redação, editor de Brasil e do Painel e correspondente em Washington e Nova York. Ganhou um Prêmio Esso em 2006.Escreve às segundas-feiras.
E-mail: fcanzian@folhasp.com.br |

