Gilberto Dimenstein
Petróleo contra a ignorância
Há tempos eu não gostava tanto de uma idéia lançada por políticos brasileiros: criar um fundo extraído da prospecção do petróleo para financiar a melhoria da educação. Dessa vez, o projeto vem apoiado por PT e PSDB, nas figuras de Lula e FHC.
Sou dos que têm sentimentos dúbios em relação às descobertas de petróleo. Isso porque quando se olha o mapa do mundo, encontramos uma relação entre excesso de riquezas minerais, baixo desenvolvimento humano, alta corrupção e atraso político --fala-se que a riqueza fácil acaba por desistir o investimento em capital humano e inovação. Basta ver também como, no Brasil, muitos municípios desperdiçam os royalties que ganham do petróleo --aliás, a Petrobras faria um grande serviço se promovesse cursos de gestão pública nas cidades beneficiadas pelos royalties.
Um recurso carimbado para melhorar as escolas talvez sirva se bem aplicado, para ajudar a tirar a educação pública do caos, sofisticando e democratizando a nação com a produção de cérebros. A inspiração vem da Noruega, um dos países com maior desenvolvimento social do mundo.
O ex-ministro Paulo Renato Souza sugeriu que o dinheiro fique concentrado na melhoria da qualidade dos professores, elevando salário e estimulando-os a estudar mais e dar melhores aulas. Tocou no ponto essencial --o professor deve ganhar mais a partir de seu desempenho.
Os detalhes ainda vão gerar muito debate. Mas, no geral, esse fundo vai mostrar, se sair do papel (ou, no caso, do subsolo) como se usa o petróleo não apenas para poluir ou gerar riquezas fáceis, mas contra a ignorância.
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Gilberto Dimenstein, 52, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras. E-mail: palavradoleitor@uol.com.br |
