Gilberto Dimenstein
Milagre dos fotógrafos cegos
Um dos mais belos exemplos do milagre da educação é a exposição, em São Paulo, chamada "Percepção do Visível", feita por fotógrafos cegos --as fotos estão no www.catracalivre.com.br. Como, afinal, um cego pode não só ter a vontade mas efetivamente registrar as imagens?
Esse é daqueles casos que deveriam ser estudados por todos os interessados na arte de ensinar. O guia daqueles fotógrafos se chama João Kulcsár, que estudou em Harvard num laboratório (Projeto Zero) que dissemina pelo mundo a idéia de que o ser humano é dotado das mais diferentes inteligências. Saber mover o corpo é uma delas. Mas a escola, em geral, só cobra uma delas, baseada no raciocínio lógico-matemático.
Por isso, João acreditou que aqueles deficientes visuais usariam outras percepções que lhes são mais aguçadas --o tato, o olfato e a audição. É o que se nota nas imagens das frutas.
Quando o professor acredita nos mais diversos potenciais de um aluno, consegue lhe dar atenção e transformar a curiosidade em algum resultado concreto, milagres acontecem --até cegos tiram fotos.
Mas quando acontece o contrário, o aluno não é estimulado, não tem um professor para fazer da curiosidade aprendizado --pior, é chamado de burro--, até quem enxerga passa a não ver nada. É o que, geralmente, vem acontecendo, especialmente nas redes públicas.
O grande desafio da nação é colocar, junto das crianças, educadores capazes de gerenciar curiosidades. O resto é detalhe.
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Gilberto Dimenstein, 52, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras. E-mail: palavradoleitor@uol.com.br |

