Pensata

Gilberto Dimenstein

16/05/2010

Minha madrugada inesquecível

Tenho o hábito de caminhar pela cidade de São Paulo. Além do prazer de flanar (meu único prazer aeróbico), esse foi jeito que encontrei de sentir e descobrir a cidade para minhas reportagens. Flano pelos piores lugares, inclusive a Cracolândia, onde já presenciei imagens que pareciam exageradas num filme de ficção. Por isso, a madrugada de domingo entra na minha história como um dos momentos inesquecíveis.

Voltei a caminhar pela Cracolândia. Estavam lá os meninos e meninas com o crack, nenhuma novidade. Mas também estavam nas ruas centenas de milhares de pessoas despreocupadas (vi mães com carrinhos de bebês). As imagens se misturavam com os sons de uma Céu, Zélia Duncan, os dos palcos de dança e das orquestras. Sombras eram projetadas nas paredes da Estação da Luz durante a execução de uma ópera Carmina Burana, cuja apoteose traduzindo com perfeição o que eu estava sentindo.

Tinha a sensação de que as pessoas reconquistavam um território ocupado por muito tempo por uma nação estrangeira. Redescobriam novos limites.

Sei que hoje tudo volta ao normal, com as madrugadas tomadas pelo crack. Mas, para muita gente, ficaram as imagens de uma madrugada inesquecível --e a de uma cidade que pode ser muito mais do que é, desde que as pessoas possam reconquistar suas ruas.

Gilberto Dimenstein é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.

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