Pensata

Hélio Schwartsman

19/10/2000

De Huntington a Prometeu ou o estupro genético

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da Folha Online

No que se assemelha muito ao pesadelo dos bioeticistas, os britânicos acabam de aprovar a utilização de testes genéticos por empresas de seguro-saúde. O primeiro diagnóstico a ser liberado é para a doença de Huntington (DH), um distúrbio cerebral degenerativo de origem genética.

Ninguém será obrigado a fazer o teste, mas, se o candidato a cliente se recusar a realizá-lo, a empresa poderá recusar a cobertura ou cobrar um agravo financeiro. Se eu estivesse de mau humor, diria que o raciocínio que fundamenta essa estranha noção de não-obrigatoriedade é meio cínico.

Em princípio, a DH atinge 10 pessoas de cada 100.000, mas a chance de um filho de pessoa acometida pela patologia herdar o gene defeituoso é de 50%. Em 90% dos casos, a moléstia se manifesta na quarta ou quinta década de vida. Ela é incapacitante e não tem cura.

No início, a sintomatologia é sutil. Tudo começa com uma ligeira inquietude, que muitas vezes passa despercebida do próprio paciente e de familiares. Logo sobrevêm os distúrbios de movimento, abalos irregulares e espontâneos que atingem os membros ou o tronco. Daí o nome, quase poético, de coréia de Huntington: a pessoa acometida se comporta como se estivesse dançando num coro de teatro grego.

A evolução é lenta mas implacável. A ataxia segue para os músculos do rosto, levando o paciente a gemer, fazer caretas e desenvolver dificuldade de fala. Em termos comportamentais, surgem depressão, apatia, irritabilidade e desinibição intermitente. Eventualmente, ocorrem delírios e comportamento obsessivo-compulsivo.

É possível detectar o gene responsável pela doença desde o nascimento, ou até antes. Os médicos, obviamente, são parcimoniosos na utilização do teste. Normalmente, só o prescrevem quando surgem os primeiros sintomas, como forma de afastar a possibilidade de outras patologias. Como não há cura, de nada adiantaria você ficar sabendo com algumas décadas de antecedência do terrível destino que o aguarda. A inexorabilidade da DH é relativa. É sempre possível morrer, por uma outra causa qualquer, antes do início da sintomatologia.

Alonguei-me na descrição dessa doença relativamente rara porque não se trata de um fenômeno isolado. O mesmo comitê britânico que aprovou o uso dos testes para DH pelos seguros-saúde estuda a liberação de exames para o mal de Alzheimer e para o câncer de mama, doenças bem mais "populares". E, ainda mais importante, fatalmente chegará ao Brasil a idéia bem neoliberal de permitir que convênios médicos se utilizem do mapa genético de seus clientes para decidir se eles são saudáveis o bastante para ter direito à cobertura. É o capitalismo sem riscos.

Há também a questão da privacidade. Não deixa de ser meio assustador pensar que podemos não ter direito à inviolabilidade de nosso DNA quando a de nossas contas bancárias está assegurada pela Constituição. Não sei exatamente por que desejo assegurar minha privacidade genética, mas garanto que a bancária interessa quase que apenas a quem sonega impostos ou lava dinheiro.

Em nome do bom jornalismo, registro a versão das autoridades britânicas. As empresas de saúde já investigavam os antecedentes de seus segurados e recusavam a apólice a quem tinha história de DH na família. Com o teste, 50% dos filhos de afetados pela doença de Huntington saem beneficiados. Não vale a pena perguntar pelo destino dos outros 50%. Sua inviabilidade econômica é genética, o que autoriza tratá-los como fatalidades estatísticas.

A idéia por trás do seguro, com o perdão do termo "demodé", é um pouco socialista. Trata-se de dividir custos para a eventualidade de imprevistos. É um pouco como um fundo de greve. E, convenhamos, dividir as despesas decorrentes de uma moléstia que atinge 10 de cada 100.000 não vai redundar em grandes prejuízos para todo o universo de segurados. Para a empresa, por outro lado, cada tostão poupado converte-se em lucro. A evasão de receita é mínima. Os que deixam de contribuir podem ser contados, no caso britânico, em poucos milhares.

Mas o que preocupa mesmo é a tendência. Com o sequenciamento do genoma humano, nas próximas décadas devem multiplicar-se os testes para detectar anormalidades genéticas que provocam ou favorecem o surgimento das mais variadas doenças. Os métodos diagnósticos devem vir antes das terapias. No limite, as empresas de seguro poderão ficar apenas com os clientes que representam lucro seguro.

Aqui, o próprio sistema deixa de fazer sentido. Se o geneticamente saudável sabe que é assim tão saudável, tem menos razões para contratar uma apólice, pelo menos uma de cobertura total. Já o "geneticamente prejudicado" (imagino que seja essa a tradução politicamente correta) terá de se virar por conta própria, criando o seu pecúlio nos anos bons, como ensina José na Bíblia. É claro que, até que se atinja um bom nível de precisão nas previsões, as empresas amealharão gordos dividendos.

O homem, dizem, é a única espécie que tem consciência de que vai morrer. E isso, segundo algumas interpretações, é a causa de boa parte de suas neuroses. Saber também como e quando vai morrer poderá revelar-se insuportável.

Talvez já esteja tudo na mitologia. Prometeu, cujo nome significa "aquele que vê adiante", na versão de Ésquilo, deu ao homem o fogo e a ciência. Como punição por ter enganado Zeus, foi acorrentado no alto de um rochedo onde, diariamente, aves de rapina vinham devorar seu fígado, que se regenerava para voltar a ser deglutido no dia seguinte. De alguma forma, Prometeu não pôde ou não quis prever seu próprio destino.

Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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