Hélio Schwartsman
De líderes e tiranos
Um mau roteirista de Hollywood tentando retratar o líder de uma republiqueta de bananas não teria conseguido imaginar um chefete apalermado tão perfeito quanto George W. Bush. O problema é que Bush não comanda um paiseco perdido nos confins da América Central com um exército de alguns milhares de homens e três tanques velhos, mas os EUA, a nação mais rica do planeta e dona da mais fabulosa máquina de guerra já reunida pelo homem. Apesar dos superlativos que o cercam, suas atitudes não se distinguem muito das de um ditadorzinho como Fidel Castro que agora voltou a "livrar-se" de problemas acionando o "paredón".
Bush fez a guerra contra Saddam Hussein porque o Iraque representaria uma ameaça para o mundo e para os EUA, possuindo grandes estoques de armas químicas e biológicas. Mas as Forças Armadas anglo-americanas esmagaram os exércitos de Saddam Hussein com tanta facilidade que provaram que os militares iraquianos não ameaçavam ninguém. Nenhum tonel de armas químicas ou biológicas foi encontrado até agora. E o fato de Saddam não tê-las utilizado nem nos estertores do regime é um bom indício de que elas não existiam.
Bush, é claro, não se deu por vencido. A razão alegada para a guerra, já praticamente encerrada então, passou a ser a "libertação" do Iraque. A queda de Saddam Hussein é, sem sombra de dúvida, motivo para júbilo. O mundo é um lugar melhor sem esse tirano especialmente cruel. (Também será um lugar melhor quando Bush abandonar a Casa Branca e Fidel deixar Havana). Mas será que, antes de enviar os marines para o golfo Pérsico, Bush perguntou aos iraquianos se eles queriam ser libertados? Está perguntando a outros povos conduzidos por ditadores se eles querem ser libertados? O mais incrível é que o americano médio acredite nessas imposturas e esteja apoiando a guerra e o governo.
É fácil demonstrar que os esforços para a "democratização" do Iraque não são muito sinceros. Alguém consegue conceber o administrador interino do Iraque, o general reformado Jay Garner, transmitindo o cargo para um radical pan-inslâmico que tenha derrotado nas urnas o candidato apoiado pelos EUA? A lógica sugere que grupos marcadamente antiamericanos, que certamente existem no Iraque, não poderão nem ao menos participar das primeiras eleições "livres" do país.
Aliás, se o Oriente Médio, num passe de mágica, se tornasse democrático da noite para o dia, é provável que grupos pan-islâmicos fortemente antiocidentais (mais ou menos da mesma matriz ideológica de Osama bin Laden) conquistassem vários governos.
É claro que a idéia de gente como Bin Laden assumindo o poder em países como a Arábia Saudita, o Egito, a Jordânia e, mais a leste, o Paquistão é preocupante. Mas, se levamos a democracia a sério, seria preciso dar uma chance a essas pessoas. Há quem afirme que o exercício do governo modera.
Um caso para refletir é o da Argélia. Em 1992, o partido religioso FIS (Frente Islâmica de Salvação) estava prestes a vencer as eleições, o que levou o governo a cancelar o pleito, num gesto que foi aplaudido por várias democracias ocidentais. O golpe, contudo, deu lugar a uma sangrenta guerra civil que já produziu 100 mil cadáveres nos últimos 11 anos. Muitos analistas apostam que, se a FIS tivesse assumido o poder, teria naturalmente moderado suas posições ao longo dos anos, num processo bastante semelhante ao que ocorre no Irã, hoje bem mais "liberal" do que nos tempos do aiatolá Khomeini. E a guerra civil argelina teria sido evitada.
Sei que democracia é muito mais do que eleições. Ela envolve, por exemplo, o respeito a direitos de minorias, algo que esses grupos radicais tendem a ignorar. É bem verdade que os governos não democráticos que hoje dominam os países islâmicos tampouco observam direitos de setores minoritários, em que pese a tradição islâmica de tolerância.
Mas voltemos a Bush. Como "sujeira pouca é bobagem", as baterias (por enquanto retóricas) dos EUA estão se voltando contra a Síria, que já foi acusada por autoridades norte-americanas de diversos calibres de subsecretários ao próprio Bush de abrigar terroristas, membros da cúpula do regime de Saddam Hussein e, pasmem, de possuir armas químicas.
Não creio que os exércitos americanos vão dar "uma esticadinha" de Bagdá até Damasco. O calendário político e econômico de Bush não é propício para uma nova guerra nos próximos meses. Mesmo assim, convém ficar alerta. As pessoas que estão agora à frente do governo norte-americano têm traços de personalidade psicopática. É possível que, de uma hora para outra, sobretudo se o aprofundamento da recessão nos EUA dificultar a reeleição do chefe, mudem de idéia e resolvam "libertar" os sírios.
Sei que legalismos não vêm muito ao caso (principalmente quando o adversário é os EUA), mas a Síria, diferentemente do Iraque, tem o "direito" de possuir armas químicas, da mesma forma que os EUA, a Rússia, a França e Israel têm o "direito" de produzir artefatos nucleares. Eu explico: armas nucleares, químicas ou biológicas só são "proibidas" para os países que voluntariamente aderiram aos acordos internacionais que as proscrevem. Assim, apenas as nações signatárias do Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TPN) estão impedidas de possuí-las. De modo análogo, só quem subscreveu a Convenção de Armas Químicas perdeu o "direito" de armazená-las. A Síria, assim como Israel, não participa de nenhum desses acordos.
O Caso do Iraque, devo esclarecer, é um pouco diferente. Após a derrota na primeira Guerra do Golfo, em 1991, Saddam Hussein comprometeu-se a destruir seu armamento não-convencional. Eram esses acordos de cessar-fogo que davam a base jurídica para as inspeções de armas da ONU.
Não sou evidentemente a favor de armamento nuclear, químico e biológico. Na verdade, sou até contrário a tanques e mesmo revólveres, especialmente nas mãos de ditadores como Saddam Hussein e Bachar al Assad, mas o mundo não pode ser regido por gostos de pessoas, seja um mero jornalista de país periférico como eu seja o presidente dos Estados Unidos.
Os EUA, sob lideranças mais responsáveis e capazes do que a atual, passaram os últimos 50 anos tentando criar mecanismos e estruturas de direito internacional para imprimir um pouco de ordem ao caos que são as relações entre países. É justamente esse esforço de meio século que Bush põe a perder ao lançar-se numa aventura bélica irresponsável no Oriente Médio.
Para quem nem venceu a eleição presidencial de 2000, Bush já fez um belo de um estrago no mundo.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
