Hélio Schwartsman
O perene e o efêmero
Começo pedindo desculpas ao leitor. Efemérides, como diz o nome, são efêmeras e devem, portanto, ser celebradas em seu dia certo. Mas, como frequentemente acontece, só me dei conta do Dia Internacional do Livro, comemorado no último 23 de abril, quando a data já havia passado. Uma vez que (quase) todo livro é uma causa que vale a pena, cometo a impropriedade de divagar sobre bibliologia num 1º de Maio, que é um dia em que deveríamos refletir sobre o trabalho e não sobre alfarrábios e incunábulos.
Para saciar a curiosidade do leitor, devo dizer que a Unesco (o braço da ONU dedicado à educação) decidiu que 23/4 seria o Dia do Livro e do Direito Autoral porque aos 23 de abril de 1616 morreram ninguém menos do que William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Garcilaso "Inca" de la Vega. É claro que a obra historiográfica deste último autor não pode ser comparada aos textos literários dos dois anteriores, seja em gênero, número ou caso. "El Inca" só entrou para o seleto grupo porque a proposta do Dia do Livro partiu da delegação espanhola De la Vega, embora tenha nascido no Peru, produziu toda a sua obra na Espanha e porque ele teve a sorte de morrer no mesmo dia dos outros dois, que são, estes sim, verdadeiros monstros sagrados da literatura universal.
Mas deixemos as letras um pouco de lado para nos centrarmos em seu suporte, o livro. Na minha modesta opinião, o livro é a segunda mais importante invenção de todos os tempos, perdendo apenas para a escrita. Não é à toa que a história da humanidade começa quando surgem a escrita e, consequentemente, os primeiros livros. Não vou me alongar em considerações sobre o nascimento do alfabeto, pois já o fiz numa coluna antiga.
O fundamental é que a escrita e o seu apoio material, que chamo grosseiramente de livro, permitiram a fixação e a transmissão de informações que, antes, dependiam de transferências orais com óbvias limitações de tempo e espaço. Mais do que isso, a escrita liberou a memória. Já não era necessário decorar os intermináveis versos das grandes epopéias que circulavam pelas bocas dos contadores de histórias. O pensamento poderia dedicar-se a tarefas mais nobres, como engendrar novas idéias.
Poderíamos passar anos discutindo esses e tantos outros aspectos da escrita, mas o que me interessa hoje é mais especificamente o livro. Os antigos desenvolveram vários tipos de livros, em geral apelando para materiais abundantes na região. Sumérios, acádios, babilônios e outros povos da Mesopotâmia (área onde está hoje o Iraque) apelaram para o barro. A nossa sorte é que a argila é um material especialmente durável, o que nos permite acompanhar todo o desenvolvimento da escrita cuneiforme desde os seus primeiros antecedentes, em 8000 a.C, até seu surgimento propriamente dito em 3300 a.C. Verdadeiras bibliotecas em forma de tabletes foram produzidas.
A escrita "rival" da cuneiforme, a hieroglífica egípcia, apareceu de forma independente por volta de 3100 a.C. Seu suporte, fora as inscrições monumentais gravadas em pedra, era o papiro, bem menos resistente que o barro. O clima seco do Egito ajudou a preservar alguma coisa, sobretudo o que foi metido em tumbas e esquecido no meio do deserto, mas a maior parte dos escritos em papiro foi destruída, de modo que os registros "fósseis" foram apagados e não sabemos hoje como os hieróglifos surgiram. A sensação é a de que apareceram de repente mais ou menos prontos. As obras gravadas em papiro eram dispostas na forma de rolos, uma prática que reinou absoluta até o início da era cristã e o surgimento dos códices, que, com suas páginas superpostas e por vezes encadernadas, foram os avós dos livros como nós os conhecemos.
Outro material bastante utilizado pelos antigos era o couro. Ganhou popularidade no Oriente Médio com o crescente prestígio de línguas como hebraico e aramaico, que se utilizavam de caracteres com formas pouco propícias para gravar em argila. Como o couro é mais durável do que o papiro, foi o escolhido por povos, como o judeu, que, para propósitos religiosos, tinham interesse em produzir livros perenes.
A escrita sobre couro encontra seu desenvolvimento máximo na cidade de Pérgamo por volta de 190 a.C. Pérgamo era a rival de Alexandria como centro de saber. Para sabotar seus "concorrentes", o faraó Ptolomeu 5º proibiu a exportação de papiro para Pérgamo. A resposta do rei Eumenes 2º foi o aperfeiçoamento das técnicas de escrever sobre peles de animais. Os textos escritos nesse meio acabaram recebendo o nome de pergaminhos em homenagem à cidade onde floresceram.
A verdadeira revolução no livro, contudo, vem com a imprensa, desenvolvida no Ocidente pelo ourives alemão Johanes Gutenberg por volta de 1450. O impacto da imprensa foi tamanho que se diz que sua criação foi a contribuição que a Alemanha deu para a civilização.
Como em quase toda grande descoberta, Gutenberg leva os louros pelo trabalho de vários. O que o alemão fez e foi um lance de gênio, sem dúvida foi reunir numa só oficina várias técnicas e aparelhos que já eram utilizados dispersamente na Europa e aperfeiçoá-los. Sua "mágica" foi criar os tipos móveis e aplicá-los sobre papel por prensagem e com tinta a óleo.
O resultado foi impressionante. Antes da imprensa de Gutenberg, o número de manuscritos em circulação na Europa se contava na casa dos milhares. Em 1500, apenas 50 anos depois do desenvolvimento da técnica, havia mais de 9 milhões de livros no velho continente.
Essa abundância de letras não se deu impunemente. No início, foram impressas bíblias, hagiografias, livros de orações e material religioso. Só em Barcelona, em 1498, foram imprimidas 18 mil cartas de indulgência. O propósito de Gutenberg ao criar a imprensa nem era a produção em massa, mas simplesmente eliminar os erros dos copistas. Logo, porém, vieram obras laicas e, pior, "subversivas".
Em 1559, a Igreja Católica emite o primeiro "Index Librorum Prohibitorum" (catálogo dos livros proibidos). A censura estava institucionalizada. O contexto era o da Reforma e da Contra-Reforma. As querelas religiosas deram espaço para o fortalecimento das línguas nacionais. A burguesia ascendente aprendeu a ler, e a ampliação do "mercado" levou à confecção de mais obras, ao surgimento de mais autores e à produção de novas idéias. Tudo isso está indissociavelmente ligado à imprensa. Seria por certo um exagero afirmar que, sem Gutenberg, não teria havido renovação religiosa, censura, ascensão da burguesia e Iluminismo, mas parece igualmente precipitado dizer que esses fenômenos e eventos não estão de modo nenhum relacionados à imprensa.
Talvez apenas o fogo, a roda e a alavanca tenham produzido tantas e tão profundas consequências sociais para a humanidade como a escrita, o livro e, num segundo "round", a imprensa. É graças a essa tríade que se pode falar em avanço da civilização.
É claro que esse progresso é sempre relativo e sujeito a "altos e baixos". De tempos em tempos, essa civilização engendra fenômenos como George W. Bush, que, num momento de arroubo com seu próprio poder, bombardeia o Iraque levando à destruição de objetos de valor inestimável como o vaso Warka e a biblioteca de Sippar, que são alguns dos mais preciosos registros da civilização. A mesma civilização que o presidente dos EUA diz defender e em nome da qual ataca um país, provocando, como "efeito colateral", a morte de milhares de inocentes.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
