Pensata

Hélio Schwartsman

15/05/2003

A psicologia da saudade

Deu no "The New York Times" : os orientais inventam menos coisas do que os ocidentais porque as escritas asiáticas inibem a criatividade, principalmente a criatividade científica. Essa hipótese foi levantada pelo linguista William C. Hannas, que trabalha para o serviço de Informação da Imprensa Estrangeira, uma agência federal sediada em Washington, no livro "A Inscrição na Parede: como a Ortografia Asiática Inibe a Criatividade" (University of Pennsylvania Press). Para o autor, as escritas asiáticas, na prática silabários, não ajudam a desenvolver a capacidade de abstração, algo que os alfabetos, ao associar símbolos a fonemas, as unidades mínimas do sistema sonoro de uma língua, fazem.

Não li a obra de Hannas e não falo chinês ou qualquer outra língua de além-Ganges, de modo que não sou a pessoa mais qualificada do mundo para meter o dedo na polêmica. Mas não resisto. O livro deve conter informações e especulações interessantes, mas é evidente que a tese afirmada pelo autor com a veemência como ele a assevera não faz muito sentido, pelo menos não em termos científicos. Ainda que admitíssemos que os orientais são menos criativos que os ocidentais, não haveria como dizer que essa menor criatividade se deve à sua escrita e não a qualquer outro fator. Não estaria arriscando muito quem sugerisse que elementos como educação, estruturas sociais, concepções filosóficas e até genes são provavelmente mais importantes do que a escrita para determinar o "grau" de criatividade de uma pessoa ou povo.

Há no próprio título da obra de Hannas a clara intenção de ser politicamente incorreto e, portanto, polêmico. É possível que preferências ideológicas tenham motivado o autor, embora ele não pareça um racista. Ao contrário, se considerasse os orientais inferiores pouco provavelmente se teria dado ao trabalho de passar boa parte de sua vida estudando vários idiomas asiáticos até a proficiência. Tampouco teria deflagrado uma espécie de campanha para que chineses, japoneses, vietnamitas e coreanos adotem uma escrita alfabética. Mas esqueçamos um pouco de Hannas. Meu intuito nesta coluna não é julgá-lo nem às suas idéias. Só discordei de sua tese sobre escrita e criatividade para concordar com uma outra, presumida na primeira. A saber, a de que existe uma relação entre linguagem e pensamento, de que o idioma que eu falo de alguma forma determina o que eu penso.

Essa teoria, que já gozou de maior popularidade entre linguistas, foi saindo de moda à medida em que se publicaram mais e mais trabalhos sobre os aspectos universais da linguagem e da cognição. Não sei se há uma oposição inconciliável entre as duas concepções. Em princípio, parece-me perfeitamente possível que existam aspectos universais na linguagem a tal da gramática universal mas que, no varejo, a língua da qual eu me utilizo para pensar tenha influência sobre meus pensamentos.

A questão me remete a Ludwig Wittgenstein (1889-1951), mais especificamente ao segundo Wittgenstein, o das "Investigações Filosóficas", que é sem dúvida um dos mais difíceis autores da filosofia. O resumo que faço a seguir é, portanto, grosseiro, precário e polêmico. Mas vamos a ele.

Para Wittgenstein, não podemos tentar codificar uma língua dentro de um conjunto de regras mais ou menos simples. Para o filósofo, um idioma é como uma chave de fenda: uma ferramenta que serve para apertar parafusos, mas também para inúmeros outros propósitos, como abrir tampas obstinadas, cutucar coisas etc. A língua não é limitada por regras, mas apenas pelo que cada um considera certo ou errado. É um pouco como uma brincadeira de esconde-esconde entre crianças. Não há uma regra explícita que proíba os participantes de esconder-se, digamos, a dez quilômetros do "ponto zero", mas, se alguma criança deixar a zona do "aceitável", os jogadores provavelmente criarão na hora uma "lei" para impedir o abuso.

Se aplicarmos as rígidas regras hermenêuticas dos professores de português a uma expressão como "estou com o coração partido", ela não fará muito sentido. Para compreender corretamente a frase, eu preciso criar para mim mesmo uma nova regra específica. Na verdade, a regra será tão específica para o caso que só fará sentido para quem já sabe usá-la, o que a torna inútil.

É justamente essa falta de regras que permite que a língua seja muito mais do que um mero instrumento pelo qual o sujeito anuncia coisas sobre o mundo e sobre si mesmo. Em Wittgenstein, o próprio sujeito vai se constituir através das palavras. Quando eu digo que estou com o coração partido, não apenas comunico meu estado de espírito como também tomo consciência dele, o elaboro e vou ampliando minha própria vida psicológica. Para o filósofo, o sujeito consciente de si só passa a existir de fato quando entra na comunidade linguística. A própria subjetividade é ela mesma matéria linguística.

De novo, não creio que a oposição entre as teses universalistas e os mecanismos mais idiossincráticos que emergem da filosofia de Wittgenstein seja insuperável. Se eu não acredito, como Heidegger, que só se possa filosofar em grego ou alemão ainda que com perda de nuances, tudo é traduzível, tampouco acho que possamos reduzir toda a exuberância das idéias humanas a meia dúzia de regras de gramática universal. Parece-me mais prudente ficar tucanamente sobre o muro e, sem negar a universalidade de certos aspectos da linguagem, admitir que, em algum grau, a experiência linguística única e pessoal de cada indivíduo constitui e determina seus pensamentos. Aqui, evidentemente há espaço para especificidades do idioma.

Tomemos o caso da palavra "saudade". Alguém um dia proferiu a grande bobagem, frequentemente repetida, de que esse termo não teria tradução em nenhuma outra língua do mundo que não o português. É claro que não é assim. Seguem alguns equivalentes: os russos têm "tosca"; alemães, "Sehnsucht"; árabes, "shauck" e também "hanim"; armênios, "garod"; sérvios e croatas, "jal"; letões, "ilgas"; japoneses, "natsukashi"; macedônios, "nedôstatok"; húngaros, "sóvárgás". Os amantes do classicismo podem acrescentar a essa lista o "desiderium" latino e o "póthos" dos antigos gregos.

Ora, se até os cães demonstram sentir saudades de seus donos quando deles ficam separados, seria de um etnocentrismo despropositado acreditar que esse sentimento é próprio apenas aos que falam português. No fundo, acho que podemos dizer que o sentimento "saudade" é universal, mas a rede de conotações e sensações que a palavra evoca em cada um, esta é individual e intransferível. A crer em Wittgenstein, desde que o homem é homem, isto é, desde que aprendeu a falar, aprendeu também uma forma de dizer saudade e de experimentá-la, o que não significa que todos sintam a mesma saudade.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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