Pensata

Hélio Schwartsman

05/06/2003

A prova

Varar uma madrugada estudando para aquela prova difícil ou frequentar um cursinho para ser capaz de passar no vestibular podem parecer coisas naturais, tão naturais como dormir, comer ou fazer sexo. Bem, receio que não haja nada de natural nisso, nem em prestar exames nem em dormir, comer ou fazer sexo.

Calma, eu me explico. Nossa necessidade de sono, alimento, alívio sexual e --por que não?-- aprendizado é biológica mesmo, mas a forma ou as formas como realizamos essas tarefas são historicamente determinadas. Não temos um gene que nos obrigue a dormir sobre camas e não dentro de redes ou de iglus, por exemplo. Tampouco há uma lei positiva que estabeleça que os hambúrgueres tão apreciados pelos americanos são preferíveis aos insetos fritos da culinária cantonesa.

No caso do sexo, embora alguns ainda insistam que a matéria seja regulada por leis divinas, o direito consuetudinário garante que mesmo as mais inesperadas combinações e arranjos são possíveis. Houve até períodos nos quais práticas que hoje consideraríamos criminosas como a pedofilia eram aceitáveis mesmo para filhos das melhores famílias.

Com o estudo, possivelmente a menos "natural" das funções mencionadas, as coisas não poderiam ser diferentes. Pelo menos em nível metodológico, não aprendemos hoje da mesma forma que os antigos gregos aprendiam. Na verdade, já não aprendemos nem do mesmo modo que nossos pais o faziam. O ensino, como quase tudo, é um processo historicamente datado e que pouco ou nada tem de "natural".

O curioso é que, apesar dos avanços da pedagogia e da notável revolução científica que altera quase diariamente o próprio objeto de estudo, isto é, os conteúdos que devem ser transmitidos aos alunos, os métodos de avaliação --a boa e velha prova-- permanecem mais ou menos os mesmos há quatro séculos. Como mostrou o caderno Sinapse publicado na edição da Folha de 27 de maio, os exames sofreram muito poucas alterações desde que foram criados pelos jesuítas no século 16.

Com efeito, a "Ratio Studiorum", ou melhor, a primeira "Ratio atque Institutio Studiorum Societatis Iesu" ("Plano e Metodologia dos Estudos da Sociedade de Jesus"), oficialmente adotada no ano da graça de Deus de 1599, prescreve uma série de regras para todas as fases do aprendizado. Lá encontraremos vários elementos que sobrevivem nas escolas modernas, a começar da própria noção de classe. Em grandes linhas, devemos aos jesuítas as aulas expositivas, os exercícios, as leituras, as dramatizações, a disposição dos alunos em sala, os exames, escritos e orais, e até as férias, que jamais deveriam ser em tempo "inferior a um mês nem superior a dois meses".

A maioria desses conceitos foi retrabalhada pela pedagogia moderna e mesmo a nem tão moderna assim, mas os exames mudaram pouco nestes mais de 400 anos. O resultado é uma sensação de inadequação. Enquanto os educadores trabalham com idéias como competências e habilidades e dão ao estudante um papel ativo em seu aprendizado, os exames ainda tendem a dar mais ênfase à memória do aluno do que à sua capacidade de raciocinar. Mais do que isso, as provas como costumam ser feitas tornam o estudante um sujeito passivo, com pouca ou nenhuma oportunidade de mostrar o que sabe ou dizer o que de fato pensa. E não é só. Os sistemas de avaliação em geral operam com médias, que são cegas para os aspectos dinâmicos do aprendizado. Um aluno que tenha tirado nota 0 num teste e 9 no segundo será reprovado, apesar da incomensurável melhora.

Seria tentador afirmar que os exames pelo menos não causam um grande mal. Se o aluno de fato assimilou a matéria, não terá maiores dificuldades para resolver a prova. Errado. Testes causam, sim, grandes danos. Tomemos o caso do vestibular. Uma vez que não existem sociedades formadas unicamente por médicos, advogados e demais "doutores", o exame vestibular deveria ser uma prova que identificaria os melhores alunos para que estes pudessem continuar seus estudos em nível universitário.

Na prática, porém, a avaliação tornou-se um fim em si mesmo. Obter bons resultados no vestibular tornou-se uma técnica específica ensinada em cursinhos. Pior do que isso, vestibulares importantes como o da Fuvest, em vez de limitarem-se a aferir o que o estudante aprendeu no ensino médio, numa dessas inversões malucas passaram a pautar os "curricula" das escolas. Esse mecanismo contribuiu para "matar" a maior virtude da LDB (Lei de Diretrizes e Bases, a "constituição" da educação), que é a previsão de descentralização e autonomia. Em princípio, qualquer escola poderia ensinar linguística de verdade em vez de regras gramaticais estúpidas ou mecânica quântica no lugar de exercícios de aceleração. Dificilmente o fazem, entre outras razões, porque é necessário priorizar os conteúdos que vão cair no vestibular.

No fundo é a hiperconcorrência tão característica de nosso tempo que ajuda a explicar tanto a inversão que ocorre no vestibular como o fato de a pedagogia moderna ainda não ter conseguido "revolucionar" as provas, a exemplo do que já fez com outros aspectos do ensino tradicional. Na economia de mercado sob a qual vivemos, tudo precisa ter seu valor mensurado. Mais do que isso, a competição pelos melhores empregos começa na pré-escola. A combinação desses dois elementos faz com que o exame assuma o caráter de auditagem permanente. É a garantia que os pais têm de que seu "investimento" nos filhos está dando "retorno".

Obstinar-se em acabar com o vestibular e os exames implicaria voltar-se contra a lógica da economia de mercado. Até acho que alguns aspectos dessa lógica devem ser francamente combatidos, mas guardo aquele mínimo de realismo para perceber que essa é uma tarefa fadada ao fracasso. Só que reconhecer o poder das forças envolvidas não implica que renunciemos à busca de novos sistemas, que possam resgatar a idéia de que a avaliação se destina a medir o desenvolvimento de um aluno para ajudá-lo em suas eventuais dificuldades, e não apenas para estabelecer valores.

Uma vez que há muito pouco de "natural" na forma como comemos, dormimos, fazemos sexo e estudamos, estamos sempre autorizados a tentar coisas novas, nem que seja para renunciar a elas logo em seguida.

PS - O paper que citei em minha coluna anterior está disponível gratuitamente na página do grupo de Lenski, "livre das garras da economia de mercado": http://myxo.css.msu.edu/papers/nature2003/

Os mesmos gentis pesquisadores disponibilizaram tambem um artigo em linguagem menos técnica, publicado na revista "Natural History" :

Agradeço ao leitor Gustavo Santos, do Laboratório de Ciências da Computação do MIT, pela dica.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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