Pensata

Hélio Schwartsman

07/08/2003

Tempus fugit

A dificuldade de retomar a coluna depois de algumas semanas de intervalo reside principalmente na escolha do tema. É como se, com a passagem do tempo, assuntos que antes eram "meus" tenham deixado de sê-lo só porque parei de acompanhá-los cotidianamente. De alguma forma, os problemas de Bush e de Blair por conta da crise iraquiana e os primeiros reveses e triunfos do governo Lula deixaram de "me pertencer", pois durante as férias não lhes dediquei mais do que os poucos minutos de preocupação diária que de fato valem. A sensação de estranheza lembra um pouco a que se dá quando, depois de algum tempo de afastamento, deparamo-nos com pessoas das quais já fomos íntimos: o reencontro ganha ares fantasmagóricos, tudo transcorre sob um manto de irrealidade e, por mais que nos esforcemos, não voltamos, pelo menos não imediatamente, a privar da cumplicidade de outrora.

Assim, até que eu readquira a necessária familiaridade psicológica com os descaminhos do Oriente Médio ou com os meandros da reforma previdenciária --o que só deve ocorrer dentro de mais alguns dias--, abstenho-me de comentar esses assuntos que, a bem da verdade, a menos que sejamos iraquianos ou juízes estaduais, nos interessam bem menos do que quer fazer parecer a imprensa de um modo geral. Como é imperativo, porém, que eu escreva uma coluna, decidi falar sobre o tempo, que é, por assim dizer, o suspeito de sempre, a um só tempo o principal "responsável" pela minha falta de assunto e assunto por definição inesgotável.

Começo por Agostinho que pelo menos fez a pergunta certa: "O que é, pois, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se eu quiser explicá-lo a quem me pergunta, não sei" ("Confissões", 11, 14). Com efeito, como observa o teólogo cristão, o tempo é um conceito ao qual nos referimos todo o tempo (sic), mas temos enormes dificuldades não apenas para defini-lo como também para pensá-lo. Retomemos as palavras do santo mais ou menos onde havíamos parado: "se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria o tempo presente. De que modo existem aqueles dois tempos --o passado e o futuro--, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa de sua existência é a mesma pela qual deixará de existir?".

Antes que concluamos, como Agostinho, que o tempo não passa de uma ilusão humana, é preciso alertar que a análise do santo não resistiria a um escrutínio mais atento da lógica formal. Agostinho, apesar da beleza de suas páginas, incorre em algumas falácias e incorreções técnicas que não cabe aqui discutir. No mais, o genial teólogo aborda a questão do tempo apenas em seu aspecto psicológico, deixando de lado um suposto tempo ontológico.

Nosso impulso natural, portanto, é o de buscar respostas na ciência, no "mundo como ele de fato é" (as aspas são irônicas, é bom avisar), onde um segundo é sempre objetivamente um segundo e equivale a 9.192.631.770 ciclos de radiação emitidos pelo átomo de césio-133. O problema é que as dificuldades insistem em permanecer mesmo por trás da aparente objetividade das ciências. Durante um breve período, lá pelos séculos 18 e 19, pareceu que se poderia estabelecer um tempo absoluto que não dependeria do homem. Para esses absolutistas, entre os quais se destaca sir Isaac Newton (1642-1727) haveria um tempo mesmo que não houvesse um universo.

Essa posição fica mais difícil (ainda que não impossível) de sustentar depois da teoria da relatividade, segundo a qual o tempo está sujeito a dilatações dependendo não apenas do observador como também de forças como a gravidade. Embora, nos seja praticamente impossível conceber um tempo anterior ao universo, visto que o próprio tempo se submete às suas leis, é igualmente problemático aceitar um instante zero da criação mais ou menos como propõe o modelo do Big Bang. Por mais que se afirme que tudo começou numa singularidade fundamental, não conseguimos deixar de perguntar pelo que haveria antes do ponto de infinita densidade e infinita energia que teria dado origem a tudo, inclusive ao tempo. Nosso modo de pensar, nossa mania de estabelecer causalidades, não necessariamente se sujeita aos postulados ou limites da física. O "nec plus ultra" da física não é o mesmo do de nossas intuições.

Uma prova de que, pelo menos neste caso, a ciência mais inquieta do que tranquiliza é de ordem literária. Os paradoxos do tempo deram lugar a todo um subgênero da ficção científica especialmente prolífico: as viagens ao passado. Por mais que tentemos escapar à dimensão psicológica do tempo, à idéia de passado, presente e futuro (que não parece tanto um atributo das coisas, mas sim de como as situamos em relação a nós mesmos), é sempre a ela que retornamos.

O tempo, ainda que pudesse ser reduzido a períodos de decaimento radioativo como quer sua definição oficial, continua despertando profundas paixões. Nem toda a ciência, filosofia e literatura do mundo reunidas nos fazem deixar de lamentar o passado e temer o futuro. E essas duas são, desconfio, as razões pelas quais o tempo, em sua irrevocabilidade, tanto nos assusta.

Quem melhor captou esse sentimento falando das coisas simples da vida foi Virgílio: "Sed fugit interea, fugit inreparabile tempus, singula dum capti circumvectamur amore" ("Geórgicas", 3, 284). Na bela mas pouco literal tradução de António Feliciano de Castilho isso dá: "Quisera abranger tudo, e tudo me convida; mas o tempo é fugaz, e curta e incerta a vida".

Deixando a metafísica e a poesia de lado, é bom tirar férias e passar algum tempo correndo atrás de crianças, observando-as crescer no ritmo acelerado do primeiro par de anos. Esse breve afastamento nos permite ver as coisas sob diferentes perspectivas. Mas é bom também estar de volta à velha rotina, principalmente quando as crianças atrás das quais corremos não param nem por um instante.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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