Pensata

Hélio Schwartsman

21/08/2003

Será que eles eram?

Começo a coluna com um pedido de desculpas. Meu último texto neste espaço, "O sacerdote gay", gerou mais mensagens de leitores do que posso responder, de modo que optei, democraticamente, por não redarguir a ninguém, e isso me deixa em falta com um bocado de gente.

Para diminuir a gravidade de minha culpa, proponho-me agora a explicar por atacado o que não fui capaz de fazer a varejo. As cartas que recebi se dividem, como não poderia deixar de ser, em dois grandes grupos, o dos que gostaram de meu escrito e o dos que o odiaram. Aos autores de missivas que se encaixam na primeira categoria, manifesto meus agradecimentos. Aos demais, meus esclarecimentos.

Começo pelo começo, isto é, pelo Gênesis (para os que não sabem, o Gênesis é o primeiro livro das Bíblias judaica e cristã). Se bem me recordo, eu disse com todas as letras que os textos canônicos de um modo geral condenavam o homossexualismo. Deixei de citar a destruição de Sodoma apenas porque não julguei necessário ilustrar as passagens negativas. Mas, uma vez que alguns leitores sugeriram que eu estava sendo parcial, debrucemo-nos sobre Sodoma.

A historieta, que está em Gênesis 18 e 19, é bem conhecida. Sodoma é a cidade de má reputação em que Ló, um sobrinho de Abraão, vivia com sua mulher e filhas. Um dia, dois anjos chegaram a Sodoma, onde foram recebidos por Ló e levados até sua casa. À noite, os habitantes da urbe foram à porta de Ló e exigiram que este lhes entregasse os recém-chegados, para que os sodomitas pudessem "conhecê-los". (Sim, é daí que surge a expressão "conhecer no sentido bíblico", que significa, em bom português, "ter relações sexuais com"). Ló recusa-se, é atacado pela turba e salvo pelos anjos, que lhe ordenam que deixe a cidade com os seus, pois Deus iria destruí-la como castigo pela depravação de seus habitantes, cujos justos não chegavam ao número de dez.

Se olharmos melhor para a história, porém, acho que ela corrobora meu argumento de que não podemos tomar as lições da Bíblia muito ao pé da letra. Ora, para tentar aplacar o apetite dos sodomitas, Ló ofereceu-lhes suas duas filhas virgens, desde que deixassem os estrangeiros/anjos em paz. E Ló, vale lembrar, era um homem justo, aliás, o único homem justo de Sodoma. Numa leitura literal, o ensinamento que se extrai é o de que as leis da hospitalidade se sobrepõem às da castidade. Por mim, tudo bem, mas não creio que este seja um corolário que as igrejas em geral e a católica em especial estejam dispostos a comprar.

Outro ponto de meu texto que foi bastante criticado é aquele em que sugiro que Davi e Jônatas possam ter tido relações homossexuais. Pessoalmente, avaliando as Escrituras como um texto literário antigo, semelhante à "Odisséia" ou a "Gilgamesh", até acredito que sim, mas deixo para o leitor julgar por si mesmo. O primeiro indício vem em 1 Samuel 18, 1: "Aconteceu, pois, que, quando ele [Davi] acabou de falar a Saul, a alma de Jônatas ligou-se à de Davi, e Jônatas o amou como à sua alma" (utilizo-me aqui do que supostamente é uma tradução mais próxima do original; como meu hebraico não dá para o gasto, eu a fiz a partir da tradução literal para o inglês de Robert Young). Em 18, 4: "E Jônatas despiu-se da túnica de cima que estava sobre ele, e a deu a Davi, e também de sua túnica longa, até de sua espada, de seu arco e de seu cinto".

Já em 2 Samuel, 26, na elegia fúnebre que Davi compôs para Saul e Jônatas, encontramos: "Sofro por ti, meu irmão Jônatas. Tu me eras muito agradável; maravilhoso era teu amor por mim, acima do amor pelas mulheres". Quem for consultar aquela bonita e ilustrada Bíblia católica várias vezes reeditada pela Barsa nos anos 60 encontrará um verso a mais, que foi provavelmente incluído pelo tradutor: "Eu te amava bem como uma mãe ama a seu filho único". Evidentemente, tal passagem não está no original hebraico. Nem mesmo na Septuaginta (a Bíblia grega) nem na Vulgata (a Bíblia latina), das quais, supostamente, o texto português seria tributário.

Na verdade, minha tradução mais carnal (ou devo dizer "menos católica") encontra respaldo na Septuaginta, que traz, para "amor", a palavra "agápêsis", formada sobre "agápê", que pode designar tanto o amor carnal, do marido pela mulher, como também amor no sentido de afeição. Seja como for, não significa apenas "afeição", como insistem certas fontes cristãs. Vale notar que até a Vulgata (a bíblia latina) conserva a ambiguidade existente no texto hebraico, ao utilizar a palavra "amabilis", isto é, "que deve ser amado".

No mais, nunca é demais esquecer que Davi e Jônatas eram militares, entre os quais, desde sempre, o homossexualismo era comum e frequentemente tolerado. E o fato de Davi ter, segundo a tradição, conhecido milhares de mulheres não o impede de ter também experimentado o sexo nos braços de um homem. Em nenhum momento sugeri que o rei de Israel tenha sido exclusivamente homossexual.

Alguns leitores tentaram argumentar pela linha da unidade. Se Deus claramente destruiu Sodoma e Gomorra por conta do comportamento escandaloso de seus habitantes, não poderia de maneira nenhuma ter admitido nem um leve toque de homossexualismo na relação entre Davi e Jônatas. Além de lembrar que insondáveis são os caminhos do Senhor, receio que a tal unidade da Bíblia seja, do ponto de vista da análise textual, que é o único sobre o qual se pode travar uma discussão racional, menos do que uma quimera. O autor do Gênesis não é o mesmo do dos livros de Samuel.

A hermenêutica bíblica contemporânea reconhece pelo menos quatro redatores do Pentateuco (os cinco primeiros livros a Bíblia). São eles o Javista (J), o Eloísta (E), o Deuteronomista (D) e o Sacerdote (P). "Grosso modo", os dois primeiros, J e E, seriam os contadores das histórias, ao passo que D e P responderiam pelos textos mais centrados em questões legais e ritualísticas. Os livros de Samuel, vale lembrar, nem ao menos fazem parte do Pentateuco, sendo considerados pelo cânone hebraico textos de profetas anteriores. A "unidade" dos escritos bíblicos é absolutamente arbitrária e só foi estabelecida séculos depois de eles terem sido criados. E a moral, ainda que em desacordo com a palavra divina, varia bastante de época para época.

Mas deixemos essa lenga-lenga da interpretação das Escrituras e passemos rapidamente para outras das objeções que me foram propostas. Nunca afirmei que a Igreja Católica deve aceitar o homossexualismo (essa minha observação está limitada ao Estado), apenas não excluí a possibilidade de que isso venha a ocorrer num futuro muito remoto. A igreja, afinal de contas, já mudou de posição antes. No mais, não estou entre os que defendem que igrejas devam obrigatoriamente aceitar gays. Eu as considero clubes fechados. Neles só deve entrar quem estiver disposto a aceitar as regras pré-estabelecidas.

Outra crítica que me chamou a atenção foi a de que, em meu artigo, eu vedava à Santa Sé o direito, dado a qualquer cidadão, de opinar na elaboração de leis e normas de um país democrático. Se dei essa impressão, expressei-me mal. O Vaticano bem como Pequim, Washington e Ulan Bator têm o direito de palpitar sobre o que bem entenderem. Só que, numa democracia, a opinião precisa ser despida do caráter de verdade imutável com que Roma costuma revestir suas posições. Foi nesse sentido que afirmei que o Estado não precisa --nem deve-- acatar as "verdades" da Santa Sé, que são de fato verdades para ela, mas não necessariamente para os não-católicos.

Passemos, por fim, a uma interessante questão filosófica que me foi proposta: Se não existe um Deus que nos passou um código moral imutável, perdemos todas as referências de certo e errado. Glosando um pouco o argumento, concluiríamos, como Dostoievski, que, se não há Deus, tudo é permitido.

Concordo que esse é um risco. Admito também que uma moral ou uma ética que tenha Deus como fundamento parece superior a códigos que tenham como base escolhas arbitrariamente humanas. É um pouco como as cartas. É mais fácil alguém "roubar" num jogo de paciência em casa do que num cassino, onde existe vigilância eterna e o medo de uma punição severa. O receio é que, sem um Deus, nos lancemos no relativismo absoluto. Não estou tão certo de que as coisas sejam necessariamente assim. Não vejo por que a ausência de uma fundamentação sobrenatural para a moral tenha de nos lançar na anomia. Creio, antes, que ela nos coloca diante da autonomia do homem, que é a sua capacidade de dar-se a lei. Há até um nome bíblico para esse fenômeno. É o livre-arbítrio.

Com ou sem Deus, temos uma noção de certo e errado (socialmente fabricada), damo-nos uma moral e elaboramos leis que serão respeitadas pela maioria de nós a maior parte do tempo. Com ou sem Deus, muitos de nós por vezes escolheremos o errado e violaremos nossos códigos morais e até nossas leis. Para o Estado, o que importa é evitar o conflito e, de acordo com padrões exclusivamente humanos de justiça, permitir a todos a maior liberdade possível, inclusive a de homossexuais se unirem com o beneplácito da lei, se este for o seu desejo. Para o Estado, Deus é irrelevante. Sugerir o contrário é abrir as portas para as guerras de religião, das quais até os deuses já deveriam estar fartos.

Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

E-mail: helio@folhasp.com.br

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