Hélio Schwartsman
Dois anos depois...
Há dois anos, seguidores de Osama bin Laden, pilotando aviões sequestrados em aeroportos norte-americanos, atiravam os aparelhos contra alvos cuidadosamente escolhidos: as duas torres do World Trade Center, o símbolo da pujança econômica dos EUA, e o edifício do Pentágono, que representa sua força militar. Um quarto aeroplano, acredita-se, deveria atingir a Casa Branca, a sede do poder político, mas acabou caindo ou sendo derrubado. Foi uma carnificina. Cerca de 3.000 civis inocentes morreram nessas ações ignóbeis, que marcam o "início" do século 21.
Ainda é cedo para tentar colocar as coisas na devida perspectiva histórica, mas já é possível começar a escarafunchar algumas de suas principais consequências. Há um ano eu escrevia neste espaço que o 11 de Setembro, embora não tenha alterado a essência do mundo, havia contribuído para torná-lo um lugar um pouco pior. Os 365 dias que transcorreram desde então apenas reforçam meu diagnóstico.
Desde que o presidente George W. Bush se declarou numa cruzada contra o terrorismo, os EUA já invadiram dois países muçulmanos. Várias coisas me incomodam nessa história. Em primeiro lugar, há o unilateralismo da Casa Branca que passou por cima da ONU, de aliados tradicionais e da opinião pública mundial para tomar o Iraque. Também foram graves as mentiras que EUA e Reino Unido armaram para tentar mostrar ao mundo que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa e estava pronto para usá-las. Não apenas tais arsenais nunca foram encontrados, como se demonstrou que os serviços secretos americano e britânico montaram dossiês baseados em fatos que sabiam ser falsos. O escândalo ainda poderá custar o cargo ao premiê Tony Blair.
Um aspecto menos comentado mas não menos importante diz respeito à imoralidade das operações bélicas conduzidas pela Casa Branca. Tanto no Afeganistão como no Iraque, a ação militar produziu um número indeterminado de vítimas civis, que facilmente chega à casa dos vários milhares. É verdade que, pelo menos em teoria, as forças norte-americanas não miraram nesses pobres diabos antes de atirar, o que representa sem dúvida uma distinção moral relevante. Seria despropositado tratar os militares como os terroristas do 11 de Setembro. Mas os civis mortos, muçulmanos e pobres, são considerados "perdas aceitáveis" ou "danos colaterais", na linguagem militar que imita as bulas de remédios. Desnecessário afirmar que esses milhares de indivíduos, incluindo muitas crianças, eram pelo menos tão inocentes quanto os mortos nos escombros do WTC, talvez mais.
Como não poderia deixar de ser, concordo que Osama bin Laden, o mulá Omar e Saddam Hussein eram bandidos e seria justo que respondessem por seus crimes diante de cortes internacionais. Mas, ao invadir países para tentar capturá-los, Bush age como o policial que, para desentocar um malfeitor escondido num prédio, explode todo o edifício, sem ligar muito para os moradores inocentes. E vale observar que nem Osama bin Laden, nem o mulá Omar nem Saddam Hussein foram apanhados. Ao contrário, todas as informações sugerem que eles estão vivos e bem, talvez até dando ordens a seguidores.
A atitude norte-americana é imoral porque os "danos colaterais", isto é, os afegãos maltrapilhos e iraquianos famintos, são tratados como simples meio para chegar a um determinado fim. Para os generais americanos, esse contingente nada desprezível de pessoas tem sua humanidade aniquilada para transformar-se em coisas. Ainda que o Pentágono não tenha especificamente planejado matar essas pessoas --supostamente teve até o cuidado de tentar reduzir as "perdas"--, os militares americanos não passam no teste do imperativo categórico kantiano. Eles não estão fazendo aos outros o que gostariam que lhes fosse feito, a menos que tenham ímpetos suicidas. Eles não agem, portanto, moralmente. A rigor, não passam tampouco no teste do cristianismo ("ama o próximo como a ti mesmo") do qual o presidente Bush se orgulha de ser um fiel representante.
Deixando as filosofices e voltando ao mundo real, as ações dos EUA no Afeganistão e no Iraque foram incapazes até mesmo de conter o terrorismo. Não temos, evidentemente, condições de afirmar o que teria acontecido se Washington tivesse agido de outro modo, mas está claro que terroristas continuam perpetrando seus crimes, em todo o mundo e especialmente no Iraque "libertado" pelas forças americanas. A situação no país já é tão grave que os próprios generais americanos fizeram pressões para convencer o presidente Bush a pedir o auxílio da ONU na administração do "pós-guerra".
Membros da resistência iraquiana e --afirma-se-- militantes de grupos terroristas que acorreram ao país após a invasão armam emboscadas quase que diárias para as tropas americanas. Já morreram mais soldados desde a cessação formal das hostilidades do que durante o período oficial de guerra. Mais do que isso, tem havido atentados contra alvos civis. Nem a infra-estrutura do país vem sendo poupada. O custo é estratosférico. Só a permanência das tropas dos EUA no Iraque, sem computar a reconstrução do país e programas de alimentação, sai por US$ 1 bilhão por semana.
Para evitar que as imagens de soldados voltando para casa em sacos de plástico prejudiquem sua campanha pela reeleição, Bush aceitou pedir à ONU que amplie sua presença no Iraque. A idéia é colocar soldados de outros países sob comando americano. Numa linguagem mais crua, os EUA precisam desesperadamente de "bucha de canhão", militares de nações do Terceiro Mundo para morrer no lugar dos seus. (A rigor, o Pentágono já vem preenchendo suas próprias legiões com imigrantes --muitos hispânicos-- que nem cidadania americana possuem).
Países como França e Alemanha, que têm presença no Conselho de Segurança da ONU, disseram que, por enquanto, a proposta americana é inaceitável, mas que há espaço para a negociação. Se Washington aceitar ceder parte do poder de decisão sobre os destinos do Iraque para as Nações Unidas, poderá haver um acordo.
Pessoalmente, tenho dúvidas quanto à capacidade da ONU de fazer um trabalho substancialmente melhor que o dos americanos. A julgar pela bomba que explodiu na sede da organização em Bagdá, ela não conta com a simpatia irrestrita dos iraquianos. No mais, as Nações Unidas não deveriam ser colocadas a serviço da agenda eleitoral do presidente norte-americano. Foi Bush quem provocou o caos no Iraque, cabe, portanto, aos EUA arcar com os custos políticos, financeiros e humanos da aventura. Creio que a ONU só deveria ampliar seu papel no Iraque e ajudar Bush se a ação resultasse em claro benefício para os iraquianos, o que ainda está por ser provado.
O 11 de Setembro produziu várias outras consequências negativas que, por motivos de espaço, apenas enumero. No plano interno, os EUA experimentaram uma grave retração dos direitos civis. No resto do mundo, velhas rivalidades se acirraram. Sob o pretexto de combater o terrorismo, Israel investiu mais pesadamente contra os palestinos. O mesmo fizeram russos em relação a tchetchenos e chineses em relação a uigures, para citar apenas algumas disputas. O multilateralismo sofreu perdas que, espero, sejam recuperáveis.
A lição fundamental do 11 de Setembro, contudo, não diz respeito a Kant, forças de ocupação ou negociações na ONU. O episódio mostra como um pequeno grupo de extremistas, numa ação absolutamente estúpida e covarde, consegue levar a maior potência do planeta a ações igualmente estúpidas que contribuíram para tornar o mundo um lugar ainda mais estúpido. A conclusão é que nem toda a ciência, a filosofia e a inteligência já produzidas pela humanidade foram capazes de nos colocar ao abrigo da estupidez de uns poucos.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
