Hélio Schwartsman
Procissão da alegria
Não sou de me vangloriar por ter acertado em vaticínios catastrofistas que fiz no passado, mas, no presente caso, não posso me furtar a, como dizem os jornalistas, "bater o bumbo". Em agosto de 2001, numa coluna que cometi contra o ensino religioso nas escolas públicas, previ que grupos organizados, fossem eles católicos ou evangélicos, tentariam tomar de assalto e "aparelhar" as aulas de religião. Pelo menos no Estado do Rio de Janeiro, foi exatamente isso o que ocorreu, no que constitui mais uma importante contribuição para a estupidez nacional.
Antes que me tomem por um incréu anticlerical, devo dizer que sou, sim, um ateu bem-intencionado, mas que nada tenho contra sacerdotes de nenhuma religião, desde que eles renunciem a tentar impor sua fé a quem não queira dela participar. Infelizmente, essa regra de ouro da convivência pacífica, está longe de ser a norma no campo das questões religiosas. E é daí que advêm muitos dos males da humanidade.
Antes, porém, de pretender solucionar os grandes problemas que afligem o homem, proponho que voltemos à questão do ensino religioso em escolas públicas do Rio de Janeiro. A Secretaria Estadual de Educação fluminense divulgou na semana passada um curioso edital de concurso para professores de religião em que prevê punições como afastamento ou demissão para o docente que "perder a fé e tornar-se agnóstico ou ateu". À parte o pequeno escândalo de discriminar ateus e agnósticos, a iniciativa fluminense incorre no absurdo de transferir a entidades religiosas privadas o direito de definir quem pode e quem não pode participar de um concurso público. Há aí pelo menos meia dúzia de inconstitucionalidades.
Como o leitor já deve ter percebido, o Rio de Janeiro está substituindo o ensino religioso de caráter mais genérico (histórico-antropológico), ministrado por professores leigos, pelo confessional. Esse duro golpe contra a separação entre Estado e igreja foi possível por uma conjunção de forças de católicos e evangélicos. O projeto foi apresentado pelo ex-deputado estadual católico Carlos Dias (PP) e sancionado em 2002 pelo ex-governador evangélico Anthony Garotinho.
Pior ainda, houve, sabe-se lá como, um loteamento das almas dos jovens alunos. Coube aos católicos, o direito de preencher 342 (68,4%) das 500 vagas de professor oferecidas. É a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) quem terá plenos poderes para credenciar docentes a participar do concurso bem como para afastá-los em caso de desvios heréticos. Os protestantes, representados pela Ordem dos Ministros Evangélicos, foram agraciados com 132 postos (26,4%); e os judeus, na figura do Rabinato, ficaram com 26 vagas (5,2%). Os judeus do Rio não chegam, evidentemente, a 5% da população, mas, provavelmente por serem mais organizados, conseguiram ocupar sozinhos a rubrica "outros credos". A dificuldade será convencer o aluno muçulmano ou umbandista de que, como membro de minoria religiosa, ele deve assistir às aulas do rabino e não as de um imã ou babalorixá.
Absurdos à parte, antes de anatematizar apenas o Estado do Rio, convém recordar que o pecado original do ensino religioso está na própria Constituição de 1988, cujo artigo 210, parágrafo 1º proclama: "O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental". A norma constitucional volta a aparecer no artigo 33 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que, entretanto, veda "quaisquer formas de proselitismo". Já haveria aí argumentos para questionar a legalidade da lei fluminense. Mas não cabe a mim ensinar o padre a rezar a missa. Espera-se que o Ministério Público do Rio tome as medidas cabíveis para tentar bloquear o ensino confessional.
É claro que o ideal seria acabar com qualquer forma de ensino religioso na escola pública, mas não nutro muitas ilusões. É no mínimo altamente improvável que os parlamentares brasileiros se mobilizem para aprovar uma emenda constitucional que ainda poderá ser vendida como "a lei contra Deus".
Não estou, com meu veemente repúdio à religião na rede oficial de ensino, sugerindo que as pessoas não tenham o direito de ensinar sua fé a seus filhos, mas defendo que o façam em seus lares e igrejas, sem ferir a laicidade do Estado. Nunca é demais insistir no fato de que foi historicamente a separação entre Estado e igreja que permitiu o surgimento das democracias contemporâneas. Isso é particularmente verdade para os EUA e para a França, que, não por acaso, ofereceram ao mundo duas das mais radicais experiências democráticas da história.
Os problemas que vejo no ensino religioso incluem também a repartição de escassos recursos públicos. Parece-me injustificável até mesmo cogitar de contratar uma procissão de 500 professores para cursos religiosos optativos (para o aluno, não para a escola) quando no Rio faltam docentes de matérias obrigatórias (para o aluno e para a escola) como matemática e língua portuguesa.
Pessoalmente, num contexto de abundância de verbas para a educação, eu nada teria contra um curso de história das religiões de caráter antropológico, no qual alunos poderiam ler autores como Lévi-Strauss, Frazer, Campbell, cujos escritos são apaixonantes. Mas não é esse tipo de matéria que foi consagrado na Constituição. Uma disciplina dessa natureza poderia ser proveitosa a partir do ciclo médio, e a Carta estabelece o ensino religioso para alunos da 1ª à 8ª séries, uma faixa etária em que os jovens costumam ser menos críticos e mais influenciáveis. O propósito dos constituintes foi, claramente, fazer um afago nas igrejas. Com tal carícia, porém, sacrificaram, talvez inopinadamente, importantes valores republicanos.
Bem, agora que já passei o meu recado contra o ensino religioso, acho que podemos voltar aos grandes problemas da humanidade. Como eu dizia, boa parte das dificuldades que o homem vem experimentando ao longo de sua história provém do caráter sectário que as associações humanas --especialmente as religiosas-- frequentemente assumem. Com efeito, faz parte do núcleo central de muitas fés a idéia de que elas carregam uma verdade única e inequívoca e que quem não faz parte do grupo torna-se, no limite, menos humano. No caso do catolicismo, a pretensão à universalidade está inscrita no próprio nome da religião. Em grego, "katholikós" não significa outra coisa que "para todos".
É verdade que essas características estão mais nas palavras e atitudes de pregadores do que no conjunto dos textos canônicos (quando os há) propriamente ditos. Se formos à Bíblia, teremos, numa leitura minimamente geral (trechos isolados podem "provar" quase tudo), dificuldade para encontrar uma justificativa para a Inquisição, por exemplo. De modo análogo, não será fácil encontrar numa interpretação coerente e sistemática do Corão algo que legitime a ação de homens-bomba. Ainda assim, não é preciso puxar pela memória para lembrar que grandes crimes foram cometidos em nome das religiões.
Apesar dos notáveis avanços do ecumenismo e do diálogo inter-religioso verificados a partir do século passado, desconfio que essas iniciativas tenham um limite, que é dado pela própria tendência de cada credo de conservar-se como uma identidade religiosa discernível. De fato, se católicos e muçulmanos, por exemplo, apagarem todas as suas diferenças, são o catolicismo e o islamismo que perderiam algo de seu sentido. Como qualquer organização, essas instituições tendem a olhar também para si próprias e manter-se vivas como hierarquias, e não apenas como um espaço de mediação entre o humano e o divino.
Pessoalmente, não acho que precisemos de um Deus senão para especular sobre Sua essência e Seus atributos, para o que Sua existência nem é necessária. Mas seria terrivelmente autoritário de minha parte tentar impor essa minha convicção individual a quem quer que seja. O dia em que todos os representantes de todas as religiões chegarem a essa mesma conclusão e renunciarem a todo proselitismo, o mundo terá se tornado um lugar um pouquinho melhor.
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Hélio Schwartsman, 42, é editorialista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas. E-mail: helio@folhasp.com.br |
